Violências

Categoria: Mundo, Vida | 28 de outubro de 2015

Acho que o mais perverso nas dinâmicas sociais é tornar as vítimas de violência incapazes de perceber que estão sendo/são vítimas de violência.

Essa semana está rolando o maior bafafá por causa do tema da redação do ENEM – violência contra mulher (os machistinhas de plantão “pira” :-D). É engraçado que, do lado de cá, no meu processo biográfico, eu também tenho enxergado diversas formas de violência sofridas, que estiveram lá sempre, pra sempre, me machucando, das quais eu nem me dava conta. Não era pra eu me dar conta – socialmente, não era. Se fosse pra eu seguir os caprichos dessa grande entidade insana chamada sociedade, eu ainda estaria no escuro, levando porrada e achando que “é carinho”, ou que “é assim mesmo”, ou que “eu mereço” (essa última é a mais perversa de todas, acho. E tão comum…).

Minha história de assédios e violências é longa. Infelizmente, como a minha, são as de tantas outras mulheres. Já falei de alguns episódios por aqui, mas agora, aproveitando a temática da semana, vou juntar todos – ou pelo menos os mais contundentes – e finalizar dividindo com vocês um processo extremamente doloroso – mas fundamental – pelo qual eu passei ontem.

Mas comecemos do início.

Eu tinha 6 anos (!!!) quando aconteceu o primeiro. Eu, criança extrovertida, curiosa e comunicativa, aceitei o convite de um garoto mais velho (tipo, bem mais velho, papo de fim da adolescência) em um churrasco de pais e filhos na escola, pra subir pro ginásio e assistir um jogo de futsal. Depois do primeiro lance de escadas, quando saímos do campo de visão dos adultos, ele me agarrou, me jogou por sobre os ombros como um saco de batatas e me levou pro banheiro masculino. Eu berrei como se não houvesse amanhã, mas foi uma situação totalmente filme de terror: os meus berros de medo foram engolidos pelos barulhos do jogo de futsal e nenhuma ajuda veio. Eu, aos seis anos, desesperada, me vi com a responsabilidade de me safar de uma situação que eu nem entendia direito, mas sabia que não era boa. Assim que ele me colocou no chão, agarrando meus braços, eu me desvencilhei, corri pra uma das cabines e me tranquei lá dentro. Não havia mais ninguém no banheiro. Eu não lembro direito como consegui escapar… Lembro de ter ficado trancada ali um tempão, implorando pra ele me deixar voltar pra minha mãe. Lembro dele me segurar de novo, pelos braços, quando saí da cabine – ele agachado, me olhando, e eu chorando feito louca. Por fim, ele me deixou sair, eu acho. E eu desci as escadas que nem uma doida destemperada até me jogar, pálida e apavorada, contra o corpo da minha mãe. E depois de contar o que havia acontecido, o que eu ouvi? “Quem manda ser assanhada?” – coisa linda o machismo, não?

Segundo capítulo: mini-eu, ainda com seis anos, está no quarto de dois amiguinhos brincando. Nossos pais eram amigos, e estavam fazendo a social na sala, enquanto nós, crianças, brincávamos no quarto dos meninos. Estávamos eu, meu irmão, meu melhor amiguinho na época, que tinha a minha idade, e o irmão dele – mais velho do que todos nós, já pré-adolescente. Lembro dos carrinhos e dos playmobils, lembro da luz, da disposição das camas no quarto, da gente no chão, percorrendo o quarto como cidade, com os brinquedos. Eis que, no meio disso, o menino mais velho coloca a mão entre as minhas pernas – bem na vagina mesmo, como se me masturbasse. Eu tomei um susto. Levantei os olhos pra ele. Ele me olhou de volta como o gostosão das paradas de sucesso, como se tudo que qualquer menina de seis anos pudesse desejar fosse um pré-adolescentezinho de merda metendo a mão pelo meio das suas pernas. Saí correndo até a sala. Sentei do lado da minha mãe, entre os adultos. Cochichei no ouvido dela, que passou a história pro meu pai, feito telefone sem fio. Rapaz… a confusão. Meu pai explodiu feito bomba, partiu pra cima do garoto. Os outros adultos se puseram na frente. “Calma, calma, ele é só uma criança. Não sabe o que está fazendo”. Depois de muita gritaria meu pai se acalmou. Os adultos voltaram pra social, e nós voltamos a brincar. Protótipo de bostinha chega pra mim, indignado, e diz: “Por que você foi contar pra sua mãe?!” Como se fosse a coisa mais sem sentido do mundo. Na volta pra casa, o que eu escuto? “Quem manda ser assanhada?”        

Terceiro: Primeiro beijo. Eu, 12 anos, toda apaixonadinha por um delinquente. Achava que era estilo – essa ilusão louca que martelam na nossa cabeça de que a gente pode “salvar”/”endireitar” os homens, já existia na minha cabeça – ou talvez, uma delinquência leve, tipo rebeldia. Só que ele era delinquentão mesmo. Enfim, delírio devidamente alimentado pela mãe do garoto, que achava que eu seria a sua redenção e salvação, fui passar um fim de semana eu um sítio com eles. Cara, com 12 anos eu era uma criança. Aí me chega ele, dois anos mais velho, e me olha, aberta e longamente, *com desejo*. Eu não sei nem explicar o impacto disso. Foi totalmente esquisito. E invasivo. E amedrontador. Mas tá, vá lá, eu estava apaixonadinha e, de certa forma, satisfeita por saber que ele estava interessado em mim também – muito embora eu quisesse um outro tipo de interesse, mais de acordo com as minhas proto noções românticas. Daí, no domingo, a mãe dele nos desova no shopping – eu, ele, o irmão e uns amigos deles. Delinquente desfila comigo pelo shopping ao mesmo tempo me exibindo e me humilhando pros amigos – “olha só, fulano”, ele diz, mostrando as nossas mãos dadas, “ela é do tipo que só dá a mão” (leia-se: não dá outra coisa). Eu, ansiosa e decepcionada, fui ficando cada vez mais quieta. O deboche dele me atingia como tapas, as risadas dos amigos ecoavam em volta, e não tinha fim. Quando voltamos para o prédio deles, ele me puxa e diz: “vem, vamos namorar um pouquinho”. A sensação? *Medo*. Os outros meninos somem. Ele me senta num banco e se aproxima de mim, o rosto vindo em direção ao meu. Minha cabeça desliga. Saí do corpo mesmo. Segue-se esse tempo de limbo – bloqueio mental total. A próxima coisa que eu lembro é dele se afastando, dizendo “Não chora”, e das lágrimas escorrendo pela minha bochecha. Nunca mencionei isso pra ninguém. Lá no fundo da minha mente, uma vozinha dizia: “Quem manda…?”

Quarto: Dezessete anos. Eu fazia aula de artes marciais e adorava. A-d-o-r-a-v-a. A aula era tarde, começava 20:30 e terminava às 22:00. A academia ficava em uma rua meio esquisitinha, bem escura, mas todo mundo sempre saía da aula junto e cada um ia ficando na sua casa, ou pegando rumos diferentes, pelo caminho, inclusive o professor, que já tinha lá seus cinquenta e era meio que o paizão da galera pra mim. Nessa noite, sei lá por que motivo, só o professor foi andando comigo. Ele morava no meio do caminho pra minha casa. Estou bem lá, tranquila, lá pelo meio da rua escura, me sentindo segura, quando, do nada, o professor me agarra. Ele finca os dedos nos meus braços e me puxa pra ele falando um monte de merda. Eu nunca vou esquecer a expressão de voracidade nos olhos dele… Eu me encho de pavor e me fecho. Penso: “Fodeu. Vou ser estuprada agora”. A única coisa que eu consigo fazer é continuar andando como se nada estivesse acontecendo, como se ele não estivesse me olhando, falando coisas, como se os dedos dele não estivessem enterrados no meu braço, me machucando e atrasando os meus passos. Dei sorte nessa noite: carros e pessoas passaram até eu conseguir, no meu “vamos fingir que isso não está acontecendo”, alcançar o prédio dele. Ali ele soltou meu braço – muito mais gente perto. Eu disse “boa noite, professor” e segui andando. Na esquina, olhei pra trás. Ele ainda estava lá, parado na calçada, me olhando fixamente, como quem calcula o que fazer. Aí, meus amores, o tornado de medo dentro de mim virou um F6. Virei a esquina e, assim que saí do campo de visão dele, corri feito louca. Corri mesmo, pra valer, a descarga de adrenalina me fazendo voar pela rua. *Nunca* contei pra *ninguém*, a não ser pra essa única pessoa, 5 anos depois. O que ela disse? “E daí?” – tipo: e daí que o cara fez isso? (!!!!!!!) – “Ele deve ter entendido a mensagem errado. Só isso”. Êta machismo gostOoOoOoso. O pior: por que vocês acham que euzinha de dezessete anos não disse nada pra ninguém? Vamos rever esse discurso *ESCROTOOOOO* logo aí acima: se o professor entendeu a mensagem errado, subentende-se que eu mandei algum tipo de mensagem, ou seja, que eu sou responsável por isso de alguma maneira. Isso não se parece terrivelmente com o “Quem manda ser assanhada?” Detalhe: na época o professor ainda se sentiu no direito de ligar pra minha casa pra me perguntar por que – bem no tom “como assim?!?!” – eu não estava mais indo às aulas.

… É mole?!

Quinto episódio: Dezenove anos. Fui efetivamente estuprada [quem quiser pode ler a versão estendida (e hardcore)  aqui] e **não me dei conta disso**. É o auge da perversidade machista e da baixa autoestima em curso (aliás, baixa autoestima e machismo são a dobradinha campeã: o segundo alimenta a primeira porque precisa dela para operar): **quem não se percebe violentada, não reage**. Não reagi. Não contei pra ninguém. A história ficou enterrada sob a frase “minha primeira vez foi ruim” por muitos e muitos anos. Até que, já aos trinta anos, quando pela primeira vez eu fui realmente contar a história completa de como eu perdi a minha virgindade, ao me ouvir, o estalo: foi estupro.

Aos trinta eu consegui enxergar esse último. Aos trinta e um (agora), no curso da biografia, eu me lembrei e consegui/pude enxergar os anteriores.

Aconteceu comigo. Isso e várias outras coisas que eu vou deixar de fora por enquanto. A grande questão é que eu não sou exceção, gente.

Eu sou regra.

O mundo é triste assim. A sociedade é escrota assim.

Não tem muito tempo eu estava em um grupo – desses de Facebook – e, lá pelas tantas, o pessoal começou a falar de assédio. Eu fiquei *impressionada* – mesmo, *chocada* –  com a quantidade de mulheres que narrou experiências de abuso sexual. Se for colocar na balança abuso físico e moral também, putz, o quadro fica mais obscuro e perverso ainda.

Vamos forçar as pessoas a falar sobre violência contra as mulheres, sim, porque é real e muito sério.

Vamos trabalhar para empoderar mulheres e turbinar sua autoestima, sim, para que elas possam reagir, pra que, em momento ***nenhum***, elas achem que merecem isso, ou que são responsáveis, ou que buscaram por isso.

Eu quero pegar a eu-mesma de seis anos, colocá-la no colo, abraçá-la, enchê-la de beijos e dizer que nada daquilo é culpa dela, que ela está segura e que vai ficar tudo bem. Eu quero ser a eu-mesma de doze e mandar aquele bostinha ir à merda ainda no shopping, antes dele sequer pensar em encostar em mim. Melhor: eu quero fazer isso e ficar com o irmão dele (uahaha) que era um fofinho, me dava mole, e foi o único ali que tentou me ajudar ou fazer com que eu me sentisse melhor. Eu quero pegar a eu-mesma de dezessete anos pela mão, dizer que ela não tem culpa de nada, ir até a polícia com ela e depois fazer denúncia-barraco do professor na academia. Eu quero ser a eu-mesma de dezenove pra berrar loucamente, unhar a cara daquele filho da puta toda, machucá-lo o mais possível e depois, saindo viva, ir direto para a polícia dar queixa dele.

Na impossibilidade de fazê-lo, eu uso o blog para tentar conscientizar pessoas e evitar os “quem manda ser assanhada” da vida…

Durante o meu tempo de intercâmbio – época na qual rolou o estupro – eu mantive um Scrapbook, uma espécie de diário com fotos e colagens. Adivinhem de quem tinha foto dentro dele?

Pois é…

O Scrapbook ficou zilhões de anos fechado, guardado em uma caixa. Mas eu sempre soube que ele estava lá e o que tinha dentro dele. Tanto que, quando eu cheguei no terceiro setênio (período de 14 aos 21 anos) da biografia, eu imediatamente me lembrei dele. E o tirei do fundo da caixa. E o abri. E me deparei com a foto do meu estuprador e uma página inteira dedicada a ele.

Eu arranquei a folha durante o encontro biográfico do terceiro setênio e já fui pra lá com o intuito de queimar aquilo. Mas Arcanjo conversou comigo e me fez ver que queimar, pura e simplesmente, não necessariamente me expurgaria daquilo. “Pensa com calma no que você vai fazer com isso. Usa isso a seu favor”. E eu acabei não queimando. E a folha dedicada ao meu estuprador acabou ficando dentro do meu biocaderno (o caderno que eu tenho só pra coisas da biografia), contaminando e atravancando a porra toda por umas duas semanas. Até que ontem eu consegui fazer alguma coisa com ela:

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Deixar ir… deixar passar…

Com o desenho e com esse post eu finalmente me livro dessa coisa perniciosa que ficou enterrada dentro de mim e da minha caixa de recordações por anos… Mas que – hoje eu vejo – nunca me pertenceu.

Porque abuso não pertence a *ninguém*.

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  1. "Arcanjo"

    Recebi permissão para apreciar o Blog 🙂

    Mas vou manter a discrição.

    Depois de ler as quatro últimas postagens, especialmente esta, o sentimento é gigante, mas as palavras são poucas.

    Sublime

    Transformar as violências do mundo em algo tão delicado e verdadeiro é um processo que possui a força necessária para mudar a realidade.

    A gente se metamorfoseia, o mundo vai junto com a gente.

    Não tenho palavras suficientes para reverenciar essa conquista

    Sublime

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    • êêêêêêêêêêêêê!!!!!

      Tem mãozinha tua nessa 🙂
      Trabalho em equipe!!!

      E nenhum obrigada basta 🙂 Haja pão pra retribuir 😀

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