Sombra e luz

Categoria: Vida | 16 de dezembro de 2015

Oi, gente 🙂

Perdoem a demora (o silêncio). O último post foi bem difícil e mexeu muito comigo. Senti a pressão, sabem?

Arcanjo disse que eu joguei minha alma no ventilador (rsrsrs) (barulho de estraçalhamento *tuf*tuf*tuf*) e talvez eu tenha feito isso mesmo. Mas eu acredito que é o que eu precisava fazer. “Sim, mas de outra forma”, ele diria. Uma forma que machucasse menos, que fosse mais luz do que sombra (se bem que o post era lado sombra, então foi bem de acordo rsrsrs).

Ele diria isso porque existe uma tend̻ncia em mim Рque tem tudo a ver com autoestima (ou baixa de) Рde passar por cima de mim mesma. Fui levada a acreditar, desde pequena, que minhas dores eram insignificantes, que ficar mole com doen̤a era frescura, que meu choro era irrelevante, que minha vontade ṇo contava, que ṇo importa o qụo esgotada ou doente eu estivesse, eu *tinha*que*dar*conta*.

O acolhimento na minha casa nunca foi bem acolhimento… Sempre foi do tipo tapa-na-cara: “Engole o choro!” “Pára com essa merda!” “Deixa de ser idiota!” Lembrei de uma vez, após uma briga com o ex, na época em que a gente namorava: Cheguei eu em casa arrasada, chorando horrores, “cabelinho na parede” (escutei essa expressão de uma amiga ontem e achei o máximo uahaha. É quando a gente se escora na parede sem forças, sai escorregando e os cabelos vão ficando pra cima, escorrendo pela parede)  e, ao invés de escuta e carinho (!!) (luxo dos luxos), eu fiquei ouvindo meus familiares berrarem comigo loucamente, me dizendo pra parar de frescura, que era totalmente ridículo eu ficar daquela forma: “Olha só o seu estado! Que patético…” etc etc etc.

Tough love – esse tipo de amor mais brusco – tem lá suas vantagens. Às vezes, a gente precisa de uma sacodidela. Mas a intensidade conta… E *só* isso… *Sempre*… Bem, acho que dessensibiliza a gente um pouco, atrapalha o processo de empatia, não só com os outros, como com a gente mesmo. Acho que torna a gente meio insensível pros nossos limites, pras nossas necessidades.  É claro que a intenção deles era boa – estavam ali, putos com o ex, tentando me proteger, do jeito que eles sabiam.

Mas, sem querer, me machucando.

Lógico que não foi só isso – muita coisa rolou nessa minha vida – mas a verdade é que o que foi construído desse bolo todo foi uma pessoa que passa como um rolo compressor por cima de si mesma, o tempo todo, sem nem perceber. Não é proposital, não é consciente. É só como sempre foi – por muito tempo, até como teve que ser.

Tem uma história que eu acho que ilustra bem isso. No meu último mês de gravidez, meus cinco cachorros, que eu amava com todo o meu coração, começaram a brigar. Brigas horríveis, sangue pra todo lado, uma coisa horrível. Depois de um período super difícil, tenso e desgastante, em que eu, barrigudona, tentei de todas as formas (floral, exercício, adestramento, especialista em comportamento canino, passeios com as cinco) contornar a situação (tendo que me jogar de barriga e tudo em cima delas para apartar brigas sem fim), eu cheguei à devastadora conclusão (uma das decisões mais difíceis e dolorosas que eu já tive que tomar) de que teria que encontrar outras famílias para os meus cães, que não conseguiam mais viver juntos. Não dava pra colocar um recém-nascido no meio daquilo. Então eu fiquei com a minha mais velha e dei as outras quatro para conhecidos. No dia em que eu entreguei a quarta e última cachorrinha, era domingo e o ex havia marcado um almoço de família para a Kelly-barriguda fazer/cozinhar. Nossa, que mau ele?

Não.

Eu concordei. Acho que foi eu até que sugeri (!!) (*alerta vermelho*). E se eu não tive bom senso e consideração por mim, por que ele teria??

Mas voltando:

A gente havia acabado de deixar a Magali com os novos donos. Estava eu no carro, voltando pra casa, arrasada, chorando desesperadamente de me acabar. Aí eu disse:

“Vamos desmarcar o almoço?”

Gente, vocês não tem noção do que o fato de eu ter dito isso significa. Normalmente, em situações do tipo, a Kelly, que se desconsidera totalmente, engole a porra do choro e faz o que tem que ser feito (!!!!). Mas a coisa tava tão feia, mas tão feia, que eu tive um lapso de tentativa de autopreservação.

E ele:

“Não, de jeito nenhum. A gente convidou as pessoas. Está todo mundo contando com isso”.

E o que eu fiz?

Cheguei em casa, lavei o rosto e fui cozinhar pra umas 15 pessoas…

E, *claro*, ainda tive que ouvir reclamação de que a comida estava demorando muito.

Culpa das pessoas?

Não.

Culpa minha.

Se a gente caga na própria cabeça, isso é exatamente o que os outros vão fazer com a gente.

Não adianta esperar sensibilidade e cuidado dos outros para com a gente, se a gente não faz isso por si mesmo.

O que eu devia ter feito?

Vamos voltar ao diálogo:

Eu: “Vamos desmarcar o almoço?”

Ex: “Não, de jeito nenhum. A gente convidou as pessoas. Está todo mundo contando com isso.”

Eu: “Beleza. Então você cozinha.”

E dito isso, eu deveria ter chegado em casa, me trancado no quarto e ligado o foda-se pra todo mundo, porque eu estava sofrendo pra caralho.

**Eu** deveria ter me respeitado. Mas eu não o fiz, e as pessoas só espelharam o meu desrespeito escroto comigo mesma.

Isso tira a responsabilidade da escrotidão alheia? Claro que não. Mas eu poderia ter me preservado, ter me respeitado, ter mandado todo mundo ir à merda ou ter ido me fechar no quarto e pronto.

E por que eu tô falando disso tudo?

O “alma no ventilador” do Arcanjo foi a forma  dele me dizer que os posts (parte 1 e parte 2) foram mais um caso de auto desrespeito (auto arrombamento) no nível da Kelly-barriguda-aos-prantos-fazendo-almoço-pra-uma-galera. Não que eu não devesse tê-los escrito – de jeito nenhum: nós dois achávamos que eu devia, sim, falar sobre isso; e não só devia, como *tinha que*, *por mim*, pra dar fechamento, pra deixar ir. A questão foi a forma não elaborada, não filtrada, não digerida, tipo alma-entregue-dilacerada-e-exposta-pra-todo-mundo-ver que ele achou que foi uma violência que eu cometi comigo mesma.

Ele está certo.

Não foi intencional – no sentido de projeto ou de premeditação – mas foi o que deveria ser. Foi o post do lado sombra – lado sombra não só dos outros, não só dos acontecimentos, mas meu lado sombra também.

Eu acho emblemático que, para falar de uma violência cometida contra mim, *eu* tenha cometido uma violência contra mim.

Não foi por acaso. Não foi aleatório.

Existe uma for̤a nisso. Porque ao falar Рdo jeito que eu falei Рda *̼ltima* viol̻ncia que eu sofri, eu tamb̩m cometi a ̼ltima contra mim.

*A última*.

Foi um basta.

Não há mais espaço na minha vida para isso.

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