Pelo direito de encontrar a própria essência (parte 1)

Categoria: Mundo, Vida | 10 de outubro de 2015

Uma vez eu postei uma imagem que dizia algo do tipo: “você se lembra de quem você era antes do mundo te dizer quem você deveria ser?” A imagem cumpria ali um papel no projeto narrativo do post, que, se eu não me engano, falava sobre propaganda, sobre uniformização forçada das pessoas (“todo mundo tem que ser magro”; “todo mundo tem que ter cabelo liso”) e sobre, claro, resistência. Esse seria um lado de olhar a pergunta.

Se olharmos por um lado menos superficial, no entanto, lá no fundo, essa pergunta, de certa maneira, é furada, já que não existe um “quem você era” **antes**. A gente se constrói em conjunto. O nosso próprio corpo nos é dado por outros dois. E a própria formação do Eu (e desculpem aí, a psicanálise vai acabar invadindo um pouco os posts já que eu tenho estudado isso recentemente) se dá a partir do olhar do outro – é a partir do reconhecimento das nossas mams (ou de quem cuida da gente quando somos bebezinhos) que a gente aprende a se reconhecer; é sendo olhado que a gente aprende que somos algo a ser visto.

Por vivermos em sociedade, desde o nascimento, nós somos “adestrados” ao/no mundo. Uma palavrinha mais simpática seria “alfabetizados”: ao nascer, somos inseridos em um processo de alfabetização de mundo que nos permite lê-lo, entendê-lo e operar/funcionar dentro dele. “Alfabetizar”, claro, é mais amigável, mas a vibe é bem “adestrar” mesmo. Mas isso não necessariamente é ruim. Se cada um fizesse o que desse na telha, a vida em grupo seria inviável, certo? Se mesmo com todas as regras de conduta, com todos os “não pode”s e “deve”s, conviver já é difícil, vocês imaginem se não tivesse nada disso? Estado de natureza total. Filme de mundo pós-apocalipse zumbi onde, pior e mais assustadoras do que os zumbis, são as pessoas que sobrevivem.

Embora o coletivo, o externo, tenha um papel f-u-n-d-a-m-e-n-t-a-l na construção de quem a gente é, e embora não exista um “quem se é” *anterior* a essa influência,  tem uma parte nisso tudo que é só nossa. Acho que ela se faz mais presente, talvez, na maneira como a gente reage ao que vem de fora, ou na maneira como organizamos internamente o que vem de fora. Seja lá o que ela for, ou como ela se manifeste, cada um de nós tem sua essência. *Ninguém* é pura e simplesmente *massa de modelar*. Maaaaaas a força “modeladora” do mundo e dos outros é *inegável* e *importantíssima*, e estar/tornar-se consciente disso é um processo importante de autoconhecimento.

É como se a gente precisasse fazer o caminho inverso: quando a gente é bebê, a gente percebe a si mesmo a partir do outro, ou seja, nós chegamos a nós mesmos pelos outros (do externo pro interno). Quando adultos, a grande sacada é perceber *em nós* os *outros*(do interno, pro externo), chegar aos outros a partir de nós mesmos e, assim, saber quem é quem, o quê é o quê, e o que pertence ou não a você.

Pra ilustrar, vou dar um exemplo da minha vida que tá espalhado por aqui pelo blog: a vida inteira, desde bem pequena mesmo, eu ouvi: “se você não é o melhor, você não é nada“. Eu, claro, internalizei isso. Como nunca na vida se é **o melhor** em nada, como sempre, **sempre**, vai existir alguém, em algum lugar do mundo, mais inteligente, mais bonito, mais sagaz, mais qualquer coisa do que você, o que aconteceu comigo por causa desse “outro” operando dentro de mim? Eu me tornei incapaz de curtir minhas conquistas – das mais às menos significantes. Um sentimento incômodo de inferioridade me acompanhou por boa parte da minha vida e um sentir-se *nada* tornou-se constante, fazendo com que um ressentimento inconsciente e irracional emergisse sempre que eu encontrava alguém “melhor do que eu”.

Doido, né?

E o que se faz com isso?

Me conhecendo, me observando, eu percebi esse mecanismo. Percebendo-o eu continuei me investigando para entendê-lo. Até chegar nesse outro dentro de mim. E expulsá-lo daqui :-D.

“Se você não é o melhor, você não é nada!”

“Ahn?!?!?! Tá louco? (!!) Xô, sai daqui. Vai encher o saco de outro”

(e virar post de blog :-D)

Transcendência, galera 😀

É imediato? Não.

É rápido? Não.

É fácil? Não.

Mas vale a pena.

E é por isso que eu enfrento a Biografia toda semana.

Vou chamar meu “Bio-mentor” de Arcanjo porque ele tem nome de anjo mesmo e o papel dele na minha vida agora é bem esse :-D.

Pois bem. Arcanjo outro dia me disse que todos nós experimentamos três relações no que tange a quem somos:

1) quem os outros acham que a gente é;

2) quem a gente acha que é;

3) quem a gente realmente é.

Uma pessoa “feliz” seria aquela para quem as respostas para essas três perguntas seriam a mesma.

Acho que esse é um dos objetivos da Biografia. E é lá que eu quero chegar.

Vamos que vamos… 😀

arvore-autoestima

(o post virou “parte 1” porque eu o comecei querendo chegar em um determinado lugar e acabei indo pra outro rsrsrs. Chegarei lá, prometo, na “parte 2” (ou 3 :-D, ou 4 :-D) em breve :-D)

(Ah! E quem for do Rio de Janeiro e quiser trilhar também esse caminho biográfico – o bagulho é doido, o processo é tenso, mas é impressionante – super recomendo o trabalho do Arcanjo (quem quiser mais info pode me escrever). Vocês vão ver só o quanto ele é incrível ao longo dos meus próximos bio-posts)

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2 comentários leave one →

  1. Paola

    Cara, tudo começa a fazer sentido! O post foi demais!!

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    • Muito obrigada!
      Obrigada pelo tempo e pela atenção.
      Fico feliz que tenha gostado.
      Beijos e sucesso pra ti

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