Por mais cuidado com o que se diz… para si.

Categoria: Mundo, Vida | 17 de agosto de 2016

“SUA IDIOTA!” Ela grita.

Eu paro. Me assusto.

Quem disse isso?

“Você.”

Eu.

Fico chocada.

Eu. Pra mim mesma.

Minha vida toda foi assim. Minha mente, essa grande inimiga ofensiva, é agressiva de um jeito que me diz coisas que ninguém diz.

De idiota pra baixo.

E não fica só dentro da minha cabeça, não. Tem horas que eu falo alto.

Grito.

As palavras saem de mim, preenchem as paredes e reverberam de volta como tapas.

A violência de tudo isso…

Eu.

Comigo mesma.

Não precisa mais ninguém.

Quantas agressões assim não passaram despercebidas e impunes?

Inúmeras.

Vezes sem conta.

Deixando feridas e marcas invisíveis.

Recentemente eu tenho me dado conta mais depressa. Olho pra mim mesma e me pergunto: “Pra quê? Pra que fazer isso?” Daí me comporto como uma mãe consolando uma criança machucada e entoo o meu mantra pessoal atual: “Eu me amo. Eu me basto. Vai ficar tudo bem”.

Parece besteira, mas adianta. Juro. Eu andei passando por umas fases punk por aqui, e noites e noites sem fim fui dormir com as mãos segurando juntos os caquinhos de coração, repetindo de novo e de novo: “Eu me amo. Eu me basto. Vai ficar tudo bem”. Vira e mexe outras frases apareciam pelo meio, entre uma repetição e outra. Uma jogada do meu inconsciente, eu acho, pra me ajudar a ouvir o que eu estava precisando. Eu deixava vir e seguia repetindo até dormir.

Os efeitos foram físicos até. Depois de uns dias disso, eu me olhava no espelho e gostava mais do que via. Infelizmente, talvez como tudo o que me faz bem, eu não mantive o hábito. Voltei pras autoesculhambações de sempre….

Mas, pelo menos, não totalmente.

Pelo menos percebendo. Me dando conta.

Passei a notar os efeitos físicos disso também.

Hoje foi um desses dias.

(*Alerta de palavrão*rsrsrs)

Tô numa fase cocô. Vou pra porra da academia *todo dia* e, ironia das ironias, só engordo. “Você está comendo mais, Kelly?”

Não.

Nãããão, caceta.

Hoje eu estava lá suando e tendo epifanias. Cheguei à conclusão de que aquele ambiente todo, que deveria ser de fazer bem, não é de céu, não. Estava eu lá, um grande tomate suento, olhando aquela porra daquele monitorzinho de merda me dizer que, depois de meia hora me fodendo na esteira, eu só tinha queimado duzentas calorias. Aí você se sente um cú. Sai de lá se arrastando. Chateado. Passa a contar calorias de coisas.

Argh.

Fiquei pensando em mim na fase corrida de rua. Comia e bebia pra caralho. Comia o que eu queria. Bebia o que eu queria. Corria as 6 voltas de quarteirão de todo dia e era isso. Às vezes ia mais rápido, às vezes menos. Nem sabia de tempo, nem de velocidade, nem de rendimento, nem de caloria gasta. Voltava pra casa super satisfeita, me sentindo o máximo, pensando em todas as coisas maravilhosas que eu ia poder comer sem culpa. E comia. E não engordava. Eu estava bem. Me sentia bem. Sentia que era suficiente. E assim, por isso, porque eu sentia e pensava assim, *era*.

E agora?

Agora eu faço musculação (nunca na vida imaginei que chegaria o dia em que eu diria isso rsrsrs) e aeróbico todos os dias, mas saio da academia me sentindo uma bosta porque sei que, mesmo fazendo todo o esforço das minhas entranhas pra conseguir correr meia hora (a meia hora mais longa de toda a existência) a 9km/h, eu não vou gastar nem 300 *escrotas* calorias.

Hoje eu estava na sala de musculação – toda espelhada, a maldita – e olhei pro meu reflexo: um tomatão nada glamouroso, nada pertencente àquele lugar de pessoas que suam lindas e que desfilam por entre os aparelhos, deslumbrantes e fluorescentes. Bastou um momento de distração e lá vieram as palavras, enchendo o espaço da minha mente: “gorda horrorosa!”

Choremos.

Mas no segundo seguinte eu levantei os olhos pra mim e falei, pelo espelho, do mal que eu estava me fazendo.

Lembrei daquele japonês que fotografou as moléculas de água…

Vocês sabem dessa?

Um cientista japonês chamado Masaru Emoto começou a fotografar cristais de água (o site dele diz “water crystals” então vou traduzir como cristais, embora nos sites em português muitos digam “molécula de água”). Ele observou que cristais da água retirada de rios e lagos não poluídos e mantidos à salvo de poluição e da intervenção humana tinham formas muito bonitas, enquanto os de água retirada de rios e lagos próximos a cidades grandes, não. Ele foi então ampliando o experimento e passou a expor água destilada a tipos variados de música – cada tipo produziu um cristal de aparência diferente. Depois, ele passou a expor amostras de água destilada à palavras ou expressões.

Esta é a imagem do cristal da água exposta às palavras “amor e gratidão”:

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E esta é a do cristal da água exposta a “você me enoja”:

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(Siniiiiistro!)

Se a gente parar pra pensar que 75% dos nossos corpos são compostos de água (!), vocês imaginem a merda que eu não estou fazendo comigo mesma, ativamente, incisiva e concretamente, com os meus “sua idota” da vida.

Triste, né?

E, pra quê?

Então, gente, todo mundo dizendo que se ama todo dia daqui pra frente, hein?

E não, eu não estou brincando.

Beijos procês.

<fonte das imagens: http://www.masaru-emoto.net/english/water-crystal.html>

Pelo direito à autoconfiança sexual

Categoria: Mundo, Vida | 12 de agosto de 2016

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<Fonte da imagem: Tumblr.>

Já tem um tempo, eu escrevi um post por aqui sobre masturbação.

Deixa eu catar…

Hmm…

Aqui!

Pois é.

Escrevo novamente, não exatamente sobre masturbação mas um assunto correlato: Pompoarismo (!!!).

Começo reforçando que meu olhar é o da “perspectiva mulher” porque, bem, sou uma. E sei como é.

Mulheres, em geral, são criadas para acharem que conhecer o próprio corpo é errado, que menstruação é feio, que secreções corporais são nojentas, que se excitar, buscar prazer, satisfazer-se é feio, etc., etc. Existe esse teatro maluco onde colocam as meninas no papel de princesas Disney, que não suam, não arrotam, não peidam, não fazem cocô e não – nã-nã-ni-nã-nã -, não transam. Elas todas têm que fingir que são esses E.T.s diáfano-angelicais que trazem bebês ao mundo por pura magia.

Enquanto meninos são estimulados desde pequenos a serem os pegadores, consumidores de pornografia (e eles também pagam lá seu preço por isso), meninas crescem ouvindo que precisam se comportar, que têm que sentar de perna fechada (porque, deus o livre, ser vista por aí de perna aberta e despertar o desejo de algum maluco, né? Meninas que se previnam e evitem provocar homens por aí – tudo culpa delas. Tudooo!!) (Alerta da ironia que pinga *plink*plink*) (Precisa?… Bom, é bom não arriscar *rsrs*), que têm que se vestir assim ou assado, falar assim ou assado, e têm que ficar quietinhas. Serem quietinhas. Boazinhas. Não serem “fáceis”. Não serem “putas”. E toda a sorte de coisas repressoras, moralistas, sustentadoras desse sistema machista de merda que todo mundo está careca de conhecer.

Resultado?

Muita gente frustrada, infeliz, que não sabe o que é ter prazer sexual. Muita gente que não consegue atingir o orgasmo e acha que tem alguma coisa errada consigo mesma. Muita gente insegura. Muita gente que acha que sexo não é nada demais, que não faz diferença. Muita gente olhando pro teto, enquanto o cara tá lá à toda, pedindo mentalmente pra ele gozar logo porque, putz! Nin-guém me-re-ce.

Mas não tem que ser assim.

Ainda que você escolha (porque ***quer***) se casar virgem com alguém, a sua primeira vez (e todas as subsequentes) não tem que ser uma merda. Se você não goza, não é porque você é frígida ou tem algum problema fisiológico. E se você acha que sexo tanto faz como tanto fez, bem, saiba que pode ser bem –

beeeeem –

diferente.

E parte do processo pra descobrir e vivenciar essas coisas é se livrar do bando de bosta que enfiam nas nossas cabeças.

Masturbar-se entra nessa porque, além de quebrar tabus aprisionadores e limitantes, promove autoconhecimento corporal. E conhecer-se ajuda muito. Conhecer o próprio corpo, saber do que se gosta, ficar à vontade com ele (o próprio corpo, eu digo) e, por conseguinte, consigo mesma, é um grande facilitador – além de um belo booster de autoconfiança nesse sentido. Afinal, saber-se capaz de *se* satisfazer é, definitivamente, *empoderador*.

Mas, vamos lá,  esse não é outro post sobre masturbação. Eu quero mesmo é falar sobre pompoarismo –

pra ajudar a transformar geral em deusas do sexo! 😀

*Uahahahahaha*.

Tô brincando :-D.

Mas não totalmente :-).

Pompoarismo é uma técnica oriental bastante antiga, derivada do tantrismo, que consiste em promover o domínio da musculatura circunvaginal. Através de exercícios, a mulher trabalha os músculos da vagina, deixando-os sarados e sinistros, para assim “evoluir” (na vibe PokemónGo) para uma entidade sobrenatural estranguladora de pênis :-D.

*Uahahahaha*

Zoando, claro.

Mas, de novo, não totalmente :-).

Agora sério:

Muito embora a principal causa para a prática do pompoarismo seja a busca por prazer – ou maior prazer – sexual, o uso dessa técnica traz uma série de benefícios em termos de saúde, como, por exemplo, prevenção (ou melhora) de flacidez vaginal, problemas de lubrificação e incontinência urinária. Mas não é por causa deles que eu resolvi falar sobre isso e sim porque, assim como a masturbação, praticar pompoarismo dá uma baita turbinada na nossa autoconfiança no tocante à sexo – além de fazer o ato sexual se tornar mais prazeroso. Ah! E o legal também: você pode até chegar a um orgasmo durante os exercícios :-D. Assim, como quem não quer nada :-). O que torna a coisa toda bem mais interessante.

Há relatos de pompoaristas sinistras que seguram canetas (!) e escrevem (!!!) com as vaginas, o que eu acho particularmente mais bizarro do que caramba-que-máximo-quero-fazer-isso-também. Mas o exemplo vale pra dar uma noção do nível de habilidade e controle da vagina a que se pode chegar.

Eu não lembro como descobri o pompoarismo. Eu tinha uns vinte e poucos quando comprei um “curso à distância” que consistia de uma apostila perebenta que mandavam pelo correio :-D. Li quase nada dela – que ainda habita a minha zona de papéis, em algum lugar do esquecimento – e não fui muito pra frente nos exercícios, não. Às vezes praticava, às vezes não, e assim a coisa foi, até não ir mais.

Daí, no mês passado, estava eu na sexshop, esse lugarzinho mágico. Conversa vai, conversa vem, a atendente mencionou que a dona da loja dava cursos de pompoarismo.

“É?!?! Que legal!!!”

Super deixei meu telefone e, passadas algumas semanas, lá estava eu, numa tarde de sábado, com mais 15 mulheres.

Tenho que falar algo sobre essa loja: a dona é uma mulher empoderadérrima e a atendente/gerente idem. Sei que o que vou dizer vai parecer estranho, mas elas fazem do ambiente algo acolhedor e familiar :-D. É bem legal. E foi assim na reunião. Foi uma coisa metade curso, metade vamos-conhecer-os-produtos-da-loja – claro, jogada comercial, mas interessante porque a mulherada se soltou e começou a trocar dúvidas e experiências, medos, desconfortos. De repente tava uma perguntando pra outras como é que fazia sexo oral, outra atestando – pra galera que tava franzindo o rosto pras bolinhas tailandesas – que sexo anal podia ser prazeroso, as mulheres mais velhas comprovando pras mais novas que super havia vida sexual pós sessenta, enfim, do nada aquilo se tornou uma reunião de amigas, dividindo intimidades e angústias, ajudando umas às outras, todas empolgadas com a técnica – e com os géis e sprays e brinquedinhos :-D.

Todo mundo saiu de lá significativamente mais pobre :-D, mas mais leve (em muitos sentidos) e mais segura de si, também.

No curso, uma das meninas reclamou que, tanto a maioria dos produtos, quanto a maior parte das justificativas e incentivos dados pela professora, focavam no prazer masculino – pra surpreender/satisfazer o homem (marido/namorado/peguete/bla), “pra deixar o cara looooouco” etc. etc. Frutos todos da sociedade machista que somos, isso não é de surpreender. Entretanto, pompoarismo não é isso. É algo que funciona tanto pra você, quanto para o seu parceiro.

Dentro do contexto do blog até, eu também não excluo o “querer dar prazer ao outro” como motivador válido. Isso porque, assim como saber-se capaz de *se* satisfazer é empoderador, saber-se capaz de dar prazer ao outro também é – sem passar por cima de si mesmo, nem dos próprios desejos e limites, claro (!!!!!), senão *não funciona*.

A verdade é que existe algo de poderoso na sexualidade – tanto pra te arrasar, quanto pra te colocar pra cima. Então por que não a explorar com a segunda opção em mente?

(Sintam-se livres para comentar e perguntar!!!)

(Beijos)

Colo

Categoria: Amor Próprio, Vida | 15 de julho de 2016

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Por um período breve, uns meses aí, as circunstâncias da minha vida acabaram fazendo de mim uma pessoa que se exercitava: focada, determinada, aquela que ia correr fizesse chuva ou sol, com dor ou sem, estando a fim ou não. Por um tempo eu precisei disso pra não pirar. A gente já conversou sobre isso aqui.

Só que a vida vai mudando, as rotinas se transformando, e aí vieram os mini-lancos – filhotes da minha bulldog. Como Pelanca era uma mãe relapsa, eu cuidei dos bebês (e muito justo, porque fui eu que inventei essa história de ninhada) e todo o meu tempo e energia ficaram para eles.

Conclusão lógica: morreu corrida.

Eu até tentei ir algumas vezes, mas o cansaço interferiu e eu parei de insistir. Resolvi respeitar minha vontade – quando eu quisesse eu voltaria a correr. Não havia questão pra mim.

Até meu namorado resolver me cobrar.

Eu cheguei a mencionar pra vocês dos primeiros estresses com essa coisa de estética – pequenas coisas lançadas a esmo, que me deixaram insegura e tal. Mas não muito tempo depois daquela história da coxa e do café da manhã (aqui), eu e namorado estávamos no metrô, indo pra compromissos, quando ele vira e me pergunta:

“Quando foi a última vez que você correu?”

Meus espinhos e escudos levantaram todos, imediatamente.

Eu me lembrei do “Vai correr!”, lembrei do dia da coxa, e das vezes em que ele me olhou feio, ou criticou porque eu comi besteira, ou muito, ou bebi demais…

(Pois é, nessas horas a porra toda sobe e explode na nossa cara)

Estiquei minha coluna.

Até onde eu sabia, ele não tinha virado meu personal trainer.

“Não lembro. Por quê?”

“Acho que uma rotina de exercício é importante pra se manter saudável.”

“Eu *sou* saudável.”

“Eu sei… Mas eu acho que faz bem pra gente.”

“Pra gente?! Por que o fato de eu correr faria bem pra gente?! O que você tem a ver com isso?”

Cara, eu virei bicho.

Eu virei o capeta encarnado.

Tudo bem que eu também fiquei péssima, me sentindo péssima, mas não decepcionei: depois de uma discussão longa, eu disse que, se ele estava tendo problemas em aceitar o meu corpo normal, não-atlético, era pra ele ficar à vontade e procurar outra pessoa, porque eu não ia virar nenhuma Miss Fitness por causa dele.

Eu achei que a coisa toda fosse terminar ali. E, puxa, como me doeu. Mas eu estava extremamente segura da minha posição e, vá lá, que eu ficasse sozinha, mas lidar com uma versão atualizada da minha mãe me enchendo não dava.

Bom, no fim, não acabou. O tempo passou e muitas conversas relacionadas à estética, aparência, valores escrotos, sociedade machista, objetificação da mulher etc. vieram depois disso.

Mas uma coisa que emergiu com toda a força foi a minha resistência.

Esse post tá ficando giga, mas deixa eu contar uma outra história pra vocês entenderem.

.•°*°•..•°*°•..•°*°•.

Era uma vez Kelly adolescente. Ela tinha problemas com o pai, um cara mega arbitrário e autoritário do tipo que a palavra era lei e que, quando ficava puto, era de dar medo até em homem barbado. Certo dia ele a mandou varrer a casa para “ajudar a mãe dela” – detalhe que ele não achava que tal tarefa cabia nem a ele, nem ao irmão dela, ambos lindamente desocupados naquele momento. Muito revoltada, mas, ok, vamo lá, ela varreu o apartamento todo. Deixando bem claro que ela estava achando aquilo tudo um absurdo, mas varreu.

Já chegando na porta da cozinha, pegando a pá para finalizar a coisa toda, o pai dela chega e diz:

“Varre de novo.”

“O quê?”

“Varre de novo.”

“Varre de novo o quê? Eu acabei de varrer a casa.”

“Você não varreu direito. Varre de novo.”

Ela tinha varrido direito. A questão não era essa. A questão era que ela tinha varrido protestando.

“Eu não vou varrer de novo. Eu acabei de varrer a casa!”

“Ah, vai. Você vai varrer a casa toda de novo agora!”

“Não vou.”

A voz dele foi subindo, subindo, subindo… As veias do pescoço e da testa saltaram, os punhos se fecharam. Ele encurtou a distância entre os dois, intimidador, ameaçador.

“Varre de novo.”

“Eu não vou varrer.”

A essa altura todo mundo veio pra sala pra ver o que estava rolando. Ele tomou a vassoura da mão dela e ficou segurando, mantendo acesa a possibilidade de ela apanhar com ela. Tudo velado, mas inegavelmente ali. Nesses momentos ele metia medo mesmo, era assustador. Até a mãe olhava alarmada.

“EU ESTOU MANDANDO! VOCÊ VAI VARRER A PORRA DESSA CASA TODA AGORA!”

Ela se sentou no chão.

“Não. Vou.”

De novo, e de novo, e de novo, ele berrava e berrava, e ela respondia: “Eu não vou varrer.”

E ela não varreu.

.•°*°•..•°*°•..•°*°•.

E o que eu quis dizer com essa história?

Eu sou o tipo de pessoa que, quando pressionada ou cobrada de forma arbitrária ou injusta para fazer alguma coisa, simplesmente *não faz*.

Então eu parei de correr. Parei.

E quando eu comecei a engordar – inevitável, porque eu *amo* comer e beber – e senti necessidade de voltar a correr pra dar uma segurada no corpo, eu fiz sem ele saber – pra não virar cobrança de novo e eu me estressar.

Só que nunca mais fluiu tranquilo. Nunca mais.

Depois desse dia do metrô, todas as vezes que eu corri foram uma **luta** comigo mesma. É como se algo dentro de mim dissesse “NÃO VOU CORRER!!” sabem? E é uma merda, porque eu dei um poder fodido ao outro sobre mim, ainda que seja às avessas. E isso não me fez bem, porque eu engordei e comecei a ficar incomodada comigo mesma. Como as coisas não vão embora tão facilmente e ninguém resolve suas questões tão rápido (nem eu, nem ele, nesse caso), veio insegurança, um pouco de raiva, enfim… Eu comecei a me achar feia, a me sentir desconfortável nas minhas roupas e a já não comer minhas batatas fritas tão despreocupadamente…

E é um saco isso.

Aí eu achei que estava na hora de fazer alguma coisa pra dar uma contornada nessa resistência.

E parti pra enfrentar um outro tabu (mostro do armário) megamastodôntico da minha vida: ir pra academia de ginástica – um dos lugares onde eu tive algumas das experiências mais humilhantes da face da Terra, nessa minha trajetória de vida – e passar pelo **horror** que é uma avaliação funcional.

Que eu fui fazer hoje, já pensando no post de superação que eu escreveria depois.

Pfff.

(Repitam comigo: Pfffffffffffffffffffffffffffffffff)

É *claro* que não foi tranquilo.

Não foi tão péssimo quanto eu esperava: eu não fiquei com vontade de chorar e querendo que um buraco no chão se abrisse e me engolisse quando tive que ficar só de top e short na frente do professor (um avanço!). Mas quando o cara me disse que 37%  (!!!) do meu corpo é gordura e que, na faixa da tabelinha, eu estava na pior categoria – “muito ruim” – eu fiquei me sentindo *péssima*. *Apavorada*. Pra não falar nas fotos que ele tirou de mim de todos os ângulos, e colocou na minha ficha “para comparação futura”. Ele ali conversando comigo, e as fotos na tela do computador me aterrorizando…

Argh, que inferno.

Depois disso, fiz musculação, fiz aeróbico e fiquei fazendo planos de passar a porra do dia inteiro na academia… Como se eu estivesse me agarrando loucamente a uma pranchinha de madeira pra não me afogar.

Merda.

Depois de trinta minutos de luta na esteira, baixou o desânimo. Fiquei pensando no blog (nessas horas, eu sempre penso), dizendo pra mim mesma que aqueles números (peso, percentual de gordura, humanidade…) não queriam dizer nada, que eu não devia deixar aquilo me afetar tanto – sem sucesso. De repente recebo uma mensagem de uma mulher (fiquei na dúvida de como me referir a ela 😀 Moça? [Estranho…] Conhecida? [Muito distanciado…] Amiga? [Achei que era muita presunção… :-D] Daí ficou ‘mulher’, pra dar uma empoderada – com quem tenho mantido certo contato. Nós só nos encontramos uma vez, mas rolou uma afinidade instantânea e absoluta. E depois de alguns meses desse primeiro e único encontro, por coincidências diversas, começamos a nos falar mais por mensagem, email, etc.

Aí, sei lá porque cargas d’água, eu resolvi perguntar pra ela:

“Um desabafo de academia pode?”

“Claro!”

Abri meu coração timidamente. Falei só do percentual de gordura e coloquei uma carinha chorosa, já esperando por alguma reação do tipo “ai, que besteira!”. Mas, milagre dos milagres, fantástica e instantaneamente ela entendeu.

(!!)

Ela também odeia avaliação funcional.

(!!!!!)

(ÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!)

E ela foi *fofa*.

Gentil.

(!!!!!!!!)

Gente, ela foi um amor, um cobertor quentinho.

E essa experiência foi inacreditável e preciosa.

Ela me falou várias coisas de esquentar coração e terminou dizendo:

“Você tem um corpo bom e que funciona. É isso que importa. Cante comigo:”

E colocou o link pra essa música aqui:

(Não é linda?)

E eu chorei.

Chorei as dores de uma vida quase inteira.

Chorei pela pessoa que eu fui, as coisas que eu ouvi e as coisas que incutiram na minha cabeça e tão fundo, tão fundo em mim, que é tão difícil me livrar…

Chorei pela forma tão cruel e implacável de olhar pra mim mesma e pro meu corpo que me ensinaram a ter…

Chorei por estar com receio de ficar pelada na frente dos outros e por querer me cobrir e me esconder…

E sofri por isso.

E sofri por lutar com isso e não conseguir superar, não conseguir me livrar de todo.

Chorei e chorei.

Mas enquanto eu chorava, eu pensava também no quanto era boa a sensação de ter recebido colo e de ter encontrado alguém tão inesperado, pra me dar a mão e dizer coisas reconfortantes *♡*.