O mundo pós-aniversário

Categoria: Vida | 2 de janeiro de 2017

O título do post é o título de um livro que eu nunca li. Não sei porque pensei nele, mas assim foi, e ali em cima está.

Destinos… 😀

Eu me lembro de uma amiga me contando a história dele, que a partir de um determinado ponto – um grande “e se…” para a personagem principal -, bifurca e segue por duas versões paralelas: em uma, ela concretiza o “e se…”, e em outra, não.

O título do post também poderia ser: “Tinha um aniversário no meio do caminho…” 😀

Atravancando 😀

Pois é. 27 de novembro foi meu aniversário, um aniversário muito, muito diferente do do ano passado. Dá praperceber pelos posts passados: ano passado havia uma euforia de recomeço no ar. Eu estava vivendo a fase corredora – e, por isso, estava relativamente em paz com o meu corpo (as fotos mostram isso. Coisa *rara*) -, estava vivendo aquela empolgação de inícios de relacionamento amoroso, enfim, estava voltada para fora: para saídas, para socializações, para visitas e festas. Nada de preguiça, nem de cansaço. E, com tudo isso rolando, até comemoração de aniversário para mim (!!), por iniciativa minha (!!!!!!!), teve (milagre dos milagres). Com direito a bolo cheeeeio de velas, vestido justo e tudo o mais.

O niver de 2016 foi bem diferente.

Esse ano doeu.

Acho que a dor das rupturas todas que eu vivi desde 2015 se fez mais presente – e outras mais se concretizaram pra fazer pesar. Meus quilos perdidos voltaram pra mim (sempre voltam… rsrs) (celulus também… rsrs); as marcas de expressão ficaram mais fundas no meu rosto; minha expressão, mais cansada; meus sorrisos, menos fáceis. Por dias, qualquer coisa me fazia querer chorar e, no dia 27 em si, mais ainda.

Meu dia começou com duas pessoas me dando coisas que eu realmente queria. Isso me deixou muito feliz, mas também, muito triste. Foi a primeira vez na minha vida em que eu senti que alguém me dava algo pensando verdadeiramente em mim, em que alguém comprou um presente realmente para mim, pensando no que eu iria gostar, no que iria me fazer feliz. Eu estou acostumada a receber presentes que as pessoas compram pensando nelas mesmas, então, viver algo diferente foi impactante. Não sei se consigo me fazer entender… fazer vocês entenderem porque algo assim poderia me deixar triste… É como quando eu estou em um grupo e as pessoas me fazem perguntas e/ou se interessam pelo que eu tenho a dizer – isso nunca cessa de me surpreender.

Mas por que isso seria surpreendente?

Entendem?

Por que o fato de alguém se interessar pelo que eu tenho a dizer deveria me surpreender?

Isso fala de coisas sobre mim e sobre a minha vida. Coisas tristes.

Assim como os presentes.

Minha filha fofa chegou da casa do pai com um bilhetinho lindo, dizendo que eu era a pessoa mais importante da vida dela. Detalhe que, um grande desejo secreto do meu coração sempre foi ser a pessoa mais importante da vida de alguém…

E esse desejo também fala de coisas tristes sobre mim  e sobre a minha vida.

Mas, mais do que tudo, nesse aniversário, eu me senti completa e verdadeiramente sozinha.

Ou melhor, eu me dei conta da total extensão da minha solidão, que é diretamente proporcional à extensão e ao peso das minhas responsabilidades.

E eu desejei com todo o meu coração (e fiquei profundamente triste por isso ser impossível) ter mãe.

Eu senti falta de ter mãe. Senti falta de ter alguém para fazer as coisas pra mim. Pra fazer um almoço de aniversário com minhas comidas favoritas, ou um bolo pra mim, pra eu cantar parabéns…

Até teve bolo. Um bolo que eu fiz, sem vontade de fazer, só porque minha filha queria muito. Quer dizer, eu fiz meu bolo de aniversário pra ela, sabe? E, nossa, como isso me deixou pra baixo…

É…

Às vezes, ter mãe alivia.

Quando a gente ainda está crescendo, a mãe é a pessoa que detém a responsabilidade. A gente pode só *ser*. Viver. Brincar. Dormir. A mãe da gente está ali, e a gente não precisa se preocupar com nada.

Mesmo depois de adulto, acho que a presença de uma mãe tem o poder de fazer a gente se sentir assim… Por uma tarde que seja.

E por uma tarde que seja, é um alívio…

E como eu queria e *precisava*, nesse ano, nesse momento da minha vida, poder sentir isso.

Só que eu não posso. Minha mãe morreu… E o que ficou por esse mundo do que um dia foi minha família nuclear, dissolveu e se espalhou no vento, pra bem longe.

Mas, enquanto eu me dava conta do quão profundamente só e por conta apenas de mim mesma eu estou/sou, uma parte de mim (que eu ignorei rsrs) me perguntava por que isso estava me deixando tão mal. Tipo, como assim? Afinal, não posso eu contar comigo mesma? Não sou eu uma pessoa forte e confiável? E não somos, nós mesmos, as únicas pessoas verdadeiramente permanentes em nossas vidas?

O peso perdurou. O mal estar. O desespero. “Chora”, eu me disse, “deixa sair”. E eu chorei. E tive medo. E tentei trabalhar a aceitação. E falhei… 🙂 E foi só ontem, mais de um mês depois, que a vida me mandou uma mensagem pra encerrar esse post (e pra me dar condições de voltar aqui e escrevê-lo, já que eu o comecei, e o deixei de lado, no dia mesmo do meu aniversário), na forma de um parágrafo de um livro sobre Tarot.

Ele diz assim:

“O ser humano ainda não aprendeu a conhecer as belezas da solidão. Ele está sempre ansiando por algum relacionamento, ansiando por estar com alguém… e esquece, de alguma maneira, que está só… que nasceu só, morrerá só e, não importa o que faça, você vive só. A solidão é algo tão essencial a seu ser que não há maneira de evitá-la. Todos os esforços dirigidos a evitar a solidão, falharam e falharão, porque são contrários a que você se torne consciente de sua solidão… E é tão lindo experienciá-la, senti-la, porque ela o liberta […] do outro. É a nossa libertação do medo de estarmos sós. “Solidão” significa simplesmente ser completo. Você é inteiro, não precisa de ninguém mais para completá-lo. Assim, tente descobrir seu centro mais profundo onde você está sempre só, sempre esteve só… tão pleno, tão completo […] que, tendo provado sua solidão, a dor do coração desaparecerá. Em seu lugar, um novo ritmo de imensa suavidade, paz, alegria e bem-aventurança estará presente. Isso não significa que uma pessoa que está centrada em sua solidão não possa fazer amigos. Na realidade, só ela pode fazer amizades, porque agora isso não é mais uma necessidade, é simplesmente um compartilhar” (OSHO apud PRAMAD, Veet. Curso de tarot e seu uso terapêutico).

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Verão…

Categoria: Mundo | 24 de novembro de 2016

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É, galera, verão chegando.

E com ele, os absurdos.

Por toda a parte pululam propagandas de cremes redutores, cremes firmadores, cremes anti celulite, cremes milagrosos, cremes plastificantes, institutos de depilação, academias de ginástica, clínicas de estética, etc. etc..

“Você precisa se preparar para o verão”, eles dizem.

E repetem, repetem, repetem incessantemente.

Muita gente não se dá conta, mas é impressionante. É tão na cara, é tão agressivo, que dá agonia. Ontem eu estava conversando com um amigo sobre isso. Entramos em um táxi que tinha uma daquelas telinhas sintonizadas na TV. Depois de mais um comercial padrão verão – modelo-de-padrões-irreais-diz:-tente-ser-como-eu-ou-morra-tentando -, eu comentei: “Já reparou como, agora, só o que aparece preenchendo os intervalos é esse tipo de propaganda?”

Já repararam?

“O verão está chegando”, eles começam. Ao que se segue o desfile de absurdos.

Nós somos metralhados com imagens de mulheres no estilo top-10-do-photoshop, em todo o esplendor de seus micro biquínis, dizendo – de novo, de novo e de novo – que só gente durinha, malhada, sem pelos, sem celulite (quem nesse mundo? quem?!?!) e sem gordura corporal pode aspirar ir à praia.

“Prepare-se para o verão!”

Compre esse creme.

Faça depilação.

Emagreça.

Tome esse shake milagroso.

Malhe.

Como se a praia fosse esse território exclusivo, por onde apenas os “eleitos do verão” pudessem transitar.

É esse tipo de mensagem implícita que leva à babaquices como aquele slogan vomitante clássico – “E nesse verão, você vai ser o quê? Sereia ou baleia?” -, ou a casos como o daquela moça que foi hostilizada só porque “ousou” ir à praia de biquíni (nesse post antigo aqui). Quantas e quantas pessoas não se sentem constrangidas com seus corpos por isso? Não deixam de frequentar esses lugares? Não deixam de usar esse ou aquele tipo de roupa, de aproveitar um dia de sol?

Argh. Chega dessa palhaçada de “projeto verão”. Vamos ocupar as praias do jeito que somos e estamos, deixar as celulus – velhas companheiras – bronzeadas, deixar o mar levar/lavar o que está pesando, pegar um sol. Porque esses não são direitos restritos às castas dos esteticamente “perfeitos”/”aceitos”, não.      

 

Dar a cara para bater – parte 2

Categoria: Amor Próprio | 11 de novembro de 2016

folhas

O título que eu queria pro post era:

*Dar a cara pra bater que a vejam*

Mas o sistema não permite riscado em título. 

Bem, que seja.

Essa história do livro já é antiga. Na época do processo biográfico, o Arcanjo dizia: “Você precisa falar para as pessoas do seu livro. Deixe-as saber que você o escreveu. Como você espera que o comprem ou que o descubram se você mesma não o divulga? Deixe as pessoas verem você.”

Hm. Problemático.

Minha resposta era sempre a mesma: “Eu não preciso que ninguém me veja. Não quero ‘ficar famosa’ (no sentido de todo mundo saber quem eu sou, e saber que fui eu – euzinha – que escrevi o que eu escrevi). Só gostaria de poder me sustentar da escrita. Só isso”.

Não sei se isso é bom ou mau, mas é certo que expressa uma dificuldade minha: a de “vender meu peixe”.

Vocês percebem a relação com autoestima aí?

Pra “vender o próprio peixe” a gente tem que ter certo grau de confiança nele.

E aí é que pega. Porque aqui dentrozinho de mim tem essa parte maldita que não acredita que eu sou “boa o bastante”.

E que espera sempre críticas, como única reação dos outros àquilo que eu faço.

Presentinho de papai e mamãe – valeu, gente!

Mas é.

Digo isso não é pra entrar na espiral de comiseração, não, galera. É pra consolidar o processo de consciência, que é também um processo de distanciamento. Distanciar significa entender o que é meu/o que sou eu e o que é deles/o que são eles. Pra poder resolver.

E talvez, observando o meu caminho de tomada de consciência, vocês também possam se dar conta de coisas do caminho de vocês.

Quando você **cresce** ouvindo, todos os dias, várias vezes ao dia, das pessoas que deveriam te proteger e ficar do seu lado, que você é “gorda” (um termo usado como ofensa e com as piores conotações possíveis), “rolha de poço” (era um dos favoritos dos meus familiares), “baleia”(etc. etc.) – e por isso: feia -, que seu cabelo é “ruim”, “duro”, “pixaim” (entre outros) – e por isso, feio -, conseguir gostar do próprio corpo ou do próprio cabelo se torna uma saga de esforços hercúleos. E não há espelho, nem foto, nem balança, nem pessoa que diga que a verdade é diferente disso: você não acredita. Não consegue.

Eu nunca vou me esquecer de um dia em que eu estava em casa, sentada na mesa da sala, só de calcinha, fazendo dever. Eu devia ter uns 14, 15 anos. Minha mãe passou por mim, no caminho da cozinha para o quarto. Eu percebi o olhar dela no meu corpo, crítico e implacável – pô, vamos lá, era cruel – mas fingi que não vi. Ela passou uma vez. Passou de volta. Passou uma terceira. Na quarta, ela parou na minha frente e disse: “Puta que pariu, Kelly. Que coisa horrorosa. Eu, com quase o triplo da sua idade, não tenho o peito caído desse jeito”.

Ô delícia.

Pra quê?

Pra quê?!?!

E o que se faz com isso, gente? Plástica?!

Meu pai não era diferente. Acrescentou ao discurso familiar generalizado, crítico da aparência e do corpo, a máxima: “nessa vida, se você não é o melhor, você não é nada”.

E aí, acabou-se.

Eu, toda satisfeita:

“Olha, pai, tirei 9,0!”

“E Por que não tirou 10,0?”

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“Olha, pai, tirei 10,0!”

“Não fez mais do que a sua obrigação.”

E daí pra baixo.

Só que, vamo lá: no que a gente é o melhor superfodástico na vida, povo? No que **não há ninguém** melhor do que a gente nesse planeta?! E que tipo de valor estúpido é esse que só serve pra fazer a gente se sentir mal e uma grande bosta insuficiente pela vida afora?

E pra tirar essa merda de dentro de mim?

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Será que o meu livro é bom o bastante?

Poderia ser melhor – sempre pode ser.

Logo, não é nada.

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Será que eu sou boa o bastante?

Poderia ser melhor (pros outros: estar cheia da grana. Ter casa própria. Ser CEO de uma multinacional. Ter 20 mil artigos publicados. Estar com a tese pronta antes mesmo da qualificação. Ter sabido aos 22 que meu relacionamento não iria dar certo e não ter feito “a burrada” de sair de casa. Ter me graduado aos 21 em medicina pra hoje estar cobrando R$500 a consulta. Falar 10 línguas diferentes. Ter dado a volta ao mundo mochilando. Não ter tido filho não planejado. Ter 10% de gordura corporal e lindos e comportados cabelos lisos. Etc. etc. etc.). Logo, não sou nada.

Foda.

Esses dias eu estava me lembrando de um menino… do passado.

O nome dele me foge como fumaça entre os dedos, mas o rosto dele está tão vívido na minha memória que é como se ele estivesse aqui, na minha frente, ao invés de em lembranças. Me lembro dele, sorridente e aberto como a gente só consegue ser quando novinho, no mar de Rio das Ostras comigo, só com a cabeça de fora, me olhando.

Me olhando com aquele princípio de gostar inocente e fofinho dos inícios de vida.

Na época, eu não sabia que era aquilo. Lembro de ver o sorriso e pensar: “Será?”, enquanto meu rosto em fogo, ficava vermelho. Mas como era tudo também muito dentro do espectro da amizade, nunca tinha como ter certeza. Na dúvida, a certeza lógica pra mim era sempre a de que eu estava confundindo as coisas. Afinal, como é que alguém ia gostar da “gorda de cabelo ruim”?

Eu tinha 13 anos e havia viajado pra Rio das Ostras com uma amiga da escola. Ela tinha uma irmã mais velha, que tinha um namorado, que tinha um irmão (o menino no mar). E todos fomos passar um feriadão na casa de veraneio dos pais dela.

Abro um parêntese para explicar que essa foi a pior fase do meu relacionamento com o meu cabelo, essencialmente porque minha mãe, incapaz de aceitar que meu cabelo não era mais liso (ele havia sido, durante a minha infância), havia me levado para fazer um relaxamento (tempos pré-progressiva, gente) que não só deixou meu cabelo um cú, como toooodo queimado. Pra uma pré-adolescente já cheia de questões: pesadelo.

Nós, os três de treze, estávamos sempre juntos. Mas nesse dia da praia, não lembro o motivo, estávamos só o menino e eu. Fiquei o tempo todo escondida na água, morrendo de vergonha do meu corpo de biquíni, e ele ficou lá comigo. Devemos ter conversado, mas não lembro. Lembro dele me olhar e de eu sentir como se eu fosse alguém de quem ele gostava de estar perto. Afeição genuína, é a expressão que me vem.

Houve vários momentos assim, ao longo do feriado. Até que, numa das noites em que os pais da minha amiga nos deixaram no centrinho da cidade, à noite, pra que nos divertíssemos, ele tentou se aproximar mais. Nós estávamos parados na rua, esperando a minha amiga amarrar os sapatos ou coisa assim, quando ele chegou mais pra perto de mim. Ele ergueu a mão e fez menção de fazer carinho no meu cabelo, quando eu, bruscamente, tirei minha cabeça do alcance dele e gritei: NÃO MEXE NO MEU CABELO!!!!

Na hora, eu não entendi porque ele ficou tão chateado, mas agora eu entendo.

Tadinho.

Foi o fim dos olhares e aberturas fofas.

Tudo porque eu não queria que ninguém percebesse – tato implica um nível bastante intenso de percepção – o quão “ruim” e “duro” o meu cabelo era.

Triste.

E por causa de valores e coisas loucas que me fizeram acreditar sobre mim, eu deixei de viver coisas boas e ter a experiência, mais cedo, de alguém gostar de mim do jeito que eu era.

Por achar que isso não era possível, eu inviabilizei essa possibilidade por muitos e muitos anos. E assim, confirmei e reafirmei, e me cerquei de pessoas que confirmavam e reafirmavam, de novo e de novo, que eu não era boa o bastante.

“Boa o bastante para quem, Kelly?”

Talvez, pra mim…