“Críticas construtivas” (ênfase nas aspas)

Categoria: Relacionamentos | 25 de abril de 2017

Eis a situação:

Um casal conversa. A mulher, que havia recebido um dinheiro inesperado, pondera sobre o que fazer com ele e pede a ajuda do homem para pensar junto:

“Eu poderia chamar alguém para tapar os buracos na parede que os cachorros fizeram”, ela diz. “Ou mandar consertar as rachaduras de vazamento na parede do quarto… Ou trocar de colchão, já que, o que está aí, está velho e faz as minhas costas doerem… Ou ajeitar o sofá, que está todo rasgado… Ou ajeitar as cadeiras da mesa da sala, que estão todas desmontando…”

Segue a lista. Todos os itens, nesse nível.

Quando parece que tudo o que está quebrado, furado, vazando, descascando, etc. foi mencionado, ele vira pra ela e diz:

“Você podia aproveitar e ir no cabeleireiro”.

(?!?!?!?!?!?)

Aí, dentro da mulher, como né?

*Pausa tensa*

“O que você quer dizer com isso?” Ela pergunta, já num tom de vai-dar-merda.

“Nada, ué. Seu cabelo está ressecado, só isso”.

O tempo fecha no rosto dela e suas palavras saem com a lentidão do que está prestes a explodir:

“Em algum momento eu expressei algum tipo de insatisfação com o meu cabelo?”

“Não. E eu adoro o seu cabelo. Mas acho que ele precisa de mãos profissionais. É só uma sugestão, uma crítica construtiva. É cuidado”.

Nessa hora, olhando pra cara dela dá pra ler claramente o *crítica construtiva e cuidado é o caralho!!* que não sai, mas que está inegavelmente ali.

A briga come entre os dois.

Ele dizendo que ela está fazendo tempestade em copo d’água e que não tem problema nenhum ele “expressar preferências”. Ela, revoltada com o absurdo de tudo isso.

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Vamos lá.

Muita merda nessa vida é dita e feita sob os rótulos da “crítica construtiva” e do “cuidado”.

Crítica construtiva é quando eu percebo que o outro tem uma necessidade ou uma vontade – que é *dele*, e não *minha* imposta a ele – que ele está tendo dificuldade em concretizar. Diante dessa dificuldade, talvez eu tenha sugestões para dar – claro, ***se*** a pessoa quiser sugestões – de coisas que possam ajudar a pessoa a conseguir, ou a pensar em formas de conseguir, aquilo que ela quer. Isso é crítica construtiva.

Cuidado (para) com o outro é quando eu estou ciente e consciente das necessidades **do outro** – necessidades *dele*, e não *minhas* impostas a ele -, e faço coisas – que eu posso e **quero** – para atender/suprir essas necessidades. Isso é cuidado.

Logo, o homem do diálogo não estava nem fazendo “críticas construtivas”, nem “cuidando” da mulher. O que ele estava fazendo era expressar o desejo de que ela atendesse ou suprisse as necessidades estéticas dele (!!!). Necessidades estéticas que eram só dele, e não dela. Isso sem falar no contexto, né? Bem diferentes as prioridades dos dois…

Enfim…

Gente, ninguém tem que ser o projeto estético de ninguém. Ninguém tem que fazer intervenções no próprio corpo de nenhum tipo para atender vontades/necessidades que são só de outros, e não dos próprios. Ninguém!!!! Se isso, em algum momento, for posto para vocês de forma impositiva, reajam! Coloquem a pessoa no seu devido lugar e/ou pulem fora! Isso é desrespeito.

Existem inúmeras maneiras não impositivas e não desrespeitosas de “expressão de preferências”. Uma delas, que é maravilhosa e funciona que é uma beleza pra todos os envolvidos, é o elogio (sincero, claro). Quando a pessoa com quem você se relaciona, coloca uma roupa, ou faz alguma coisa no cabelo, ou pinta a unha, ou faz depilação ou algo assim (***porque quer***), e você gosta *e elogia*, ela aprende de uma forma super gostosa, sobre as suas preferências e necessidades estéticas. Assim, quando ela quiser que você a ache mais atraente e bonita, ou quando ela quiser se sentir mais atraente e bonita perto de você, é bastante provável que ela vá se arrumar ou fazer coisas considerando essas preferências. Mas olha só que legal: não por obrigação, não por insegurança, não por imposição, mas por vontade própria.

E isso faz toda a diferença do mundo.

E pra quem não entender, vamo lá, cartãozinho do Buda:

 

 

 

 

 

 

 

 

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe

Categoria: Vida | 10 de abril de 2017

Uma vez eu estava ouvindo uma palestra de um cara que dizia que a vida não dá trégua. Que a gente está aqui para aprender e, por isso, nada nunca vai ficar tranquilinho, e fácil, e maravilhosamente lindo por muito tempo. Se ficar, ele disse, é porque o que se tinha pra tirar de aprendizado desse tempo de experiência nessa existência já foi tirado, e é chegada a hora de partir pra outra.

Não sei porque, mas eu acho esse raciocínio reconfortante nos momentos em que parece que a vida tá te sacaneando.

Outro dia mesmo eu estava conversando com um amigo, que, como eu, está tendo um início de ano beeeeem complicadinho. “Deve haver um aprendizado nisso tudo”, ele disse. Eu ri e respondi que é o que tenho repetido pra mim mesma. Eu vejo a merda voando no ventilador e penso: “o que eu tenho que/pra aprender com isso, porra?” Ou, quando a merda é familiar, eu me pergunto: “por que isso está se repetindo? O que eu deixei de perceber da última vez?”

Não pensem com isso que eu virei um exemplo de pessoa zen, porque eu passo longe. Na maioria das vezes, fico só nas perguntas e resposta nenhuma vem. Mas tem dias que nem pra se questionar dá, e seu coração tá tão pequenininho que você só quer se encolher em algum canto e sumir.

Sábado eu tive um momento desses. Acontece muito comigo isso, não sei se com vocês também: você está lá, se divertindo, tudo lindo, jantar, comida e bebida boas, risadas, enquanto, sorrateiramente, alguma coisa obscura, lá das profundezas, vem à tona e, do nada, *BOOOOOOOM*, tudo isso implode e você fica lá, em pé, desnorteada no meio dos escombros e toda machucada.

Fui andando como um foguete de volta pra casa, segurando o choro. Numa esquina, havia um bar com música ao vivo. A moça cantava uma música do Chitãozinho & Xororó: “Evidências”.

Parei e voltei pra escutar.

Há o que parecem dez gerações (quase dois anos), eu estava passando pela fase mais trevas que eu já tive que enfrentar: o decretado e oficializado fim do meu casamento. Nessa época, eu me refugiava na casa de uma amiga que estava passando pela mesma situação. Uma dava força pra outra, ou só fazia companhia, lá no fundo do poço. Uma noite, nós estávamos lá, bebendo e conversando, ela com o violão me mostrando as músicas de-cortar-coração-como-faca-quente-na-manteiga que havia composto, e nós começamos a cantar juntas. Primeiro, as músicas dela. Depois, outras aleatórias, de fossa. E ela: vamos gravar?! E ali, no meio da escuridão bizarra daquele período, nós duas dividimos esse momento maravilhosamente divertido, de cantar, e se ver/ouvir cantar, e morrer de achar graça de tudo isso. Foi um parêntese de respiro, um foguinho aceso no momento mais merda da história da minha vida. E uma das músicas que nós duas cantamos e gravamos era justamente a que a moça do bar cantava, quase dois anos depois, em outra noite de merda: “Evidências”.

A vida é essa coisa engraçada.

Eu fiquei parada na calçada, apertando internamente o coração pra segurar os caquinhos juntos, ouvindo a moça cantar. E era como se ela me dissesse que aquilo não era nada perto do que eu já tive que enfrentar, e que eu já tinha estado em situação muito pior antes e superado, e que mesmo quando você está arrasado e o mundo todo parece uma bosta, coisas boas podem acontecer.

“Vai passar”, eu entendi.

Tudo passa.

 

Comunicação não-violenta… SQN

Categoria: Relacionamentos, Vida | 24 de fevereiro de 2017

Eis a situação:

Eu, puta dentro das calças.

Imaginem assim, uma pessoa total e verdadeiramente puta.da.vida.

Eu.

Vejam, eu tinha acordado bem. Humor cintilante como o sol.

Tá, péra. Como o sooool talvez não.

Era, assim, um bebê “cintilância”, que estava começando a germinar depois de um período de tensões e brigas.

Aí, vem a pessoa e, ao invés de “bom dia”, é reclamação.

“Bom dia, Namorado!!!” (Leia-se: “Pô, sério que você tá começando o dia assim?”)

Eu ainda estava com uma disposição de tentar ser iluminada.

“Ainda”, no sentido de: “É… não durou”.

Mas, ok. Não vamos nos adiantar.

Eu estava lá, na tentativa.

Sentamos pra tomar café e…. toma-lhe mais reclamação, seguida do par reclamação/cobrança.

Não houve respiração profunda que desse jeito.

O tempo fechou e a “cintilância” virou irritação.

Mas latente.

Aquela coisa quieta (mortal),  que vai inflamando dentro da gente. Cada nova chaticezinha era como uma pelota de álcool gel tacada no foguinho da frustração.

No fim do café da manhã, vocês imaginem.

Eu.

Naquele estado.

Já soltando faísca.

Mas calaada.

Na minha.

Aí, vem a pessoa, tentando dar uma de Marshall Rosenberg, o que seria muito legal, não fosse pelo fato de que aquela tentativa escondia – sorrateira mas inconfundivelmente – uma exigência/cobrança de que eu tentasse também.

Cara…

Pelo menos pra mim, não tem nada menos desestimulante e definitivamente aniquilador (extermínio grau milésima potência) de comunicação não-violenta do que ser **cobrada** de me comunicar não-violentamente.

Isso foi, assim, vááárias pelotas no meu foguinho, mas ok, eu estava tentando tentar.

Mas vocês já tentaram? Gente, é difícil. É difícil daquele jeito quando a gente puxa os dedos – das duas mãos (!!) – pelo rosto abaixo derretendo a face, sabem? Você fica ali, pensando, pensando, caçando palavras e formas de se expressar, aí vem alguma coisa na sua cabeça só pra você perceber que aquilo é violento igual, e você fica vivendo isso de novo e de novo, procurando jeitos de falar, enquanto, ao mesmo tempo, você fica ali, lutando contra esse desejo cada vez mais ardente de mandar a pessoa ir à merda – porque sim, isso sim, definitivamente, seria violento. Só que quanto mais você está ali, tentando encontrar uma forma bacana – gentil – de falar, mais forte esse desejo fica e um “VAI À MERDAAA”, daqueles de encher as bochechas, tá assim, na ponta dos dentes, quase escapando…

E, ali, naquela hora, eu sentia uma frustração do cacete – pra somar com o quadro de “frustrância” geral da porra da manhã – e eu via – sentia, no corpo, em ondas que saíam de mim – a minha impaciência crescendo.

*Respira*Respira*

Aí eu falei. A coisa mais razoável que eu consegui.

E a pessoa:

“Isso não foi muito não-violento.”

*Inspiração loooonga*

Aí, meu irmão, não era mais álcool gel porra nenhuma. Era tanque de gasolina.

E eu? Calaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaafica calada, Kelly, fica calada, fica calada…

“Eu faço o maior esforço e o que eu ganho? Silêncio. Boa.” *sarcasmo estalando*

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

“Ótimo. Mais um dia estragado…” (subtexto: por você)

aaaaada

“Kelly, vamos conversar.”

“CONVERSAR É O CARALHO.”

Pronto. Ladeira abaixo.

Uahahahahahahahahaha