O mundo é um lugar muito triste – bem pra além da celulite nossa de cada dia

Categoria: Filmes, Mundo | 30 de dezembro de 2014

Fim de ano é sempre época de balanço diante da promessa de renovação que o novo ano traz. Tudo bem que, como bem diz o Suricato Seboso,

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mas sempre fica esse clima de novas chances, de avaliar a vida, de estabelecer metas, de fazer promessas pra si mesmo.

Minhas reflexões desse ano vieram independentes e desconectadas da virada, de resoluções ou de planos. Elas vieram motivadas por um filme arrasador de corações que eu assisti ontem à noite (filme!! Filme!!). O nome é A boa mentira (The good lie).

Já que vou falar de filme, já sabem, né? 🙂 Se não quiserem que eu estrague a história pra vocês, parem de ler agora ou arrependam-se depois rsrsrsrsrs (mas, claro, claro: parem, assistam, e voltem (!!) pra conversar :-D).

Então vamos lá:

 

 

**alerta de spoiler**alerta de spoiler**alerta de spoiler**alerta de spoiler**

 

A boa mentira é um filme baseado em fatos reais – o mais estarrecedor de tudo – que conta a história de uma família de refugiados sudaneses; ou melhor, a história de luta pela sobrevivência de um monte de crianças órfãs em um país assolado pela guerra civil. Já começa com a chacina do grupo familiar dos personagens principais: soldados/guerrilheiros invadem a aldeia e saem matando todo mundo. Sete irmãos conseguem escapar, depois de verem os pais sendo mortos. “Você é o chefe agora”, a única menina diz pro mais velho – que deve ter no máximo uns 14 anos – e, bem assim, ele se vê responsável por levar o que restou de sua família pra um lugar seguro. Só que não tem lugar seguro: eles vagam de lugar pra lugar, atravessando a savana africana, só pra chegar onde aqueles que eles conseguem encontrar ainda vivos pelo caminho os mandam ir e descobrir que a guerra chegou lá também.

Um por um os mais novos vão morrendo: de sede, de fome, de fraqueza, vítimas da violência; até que só restam os três maiores: a menina – Abital – o mais velho – Theo – e o do meio – Mamere. Por um breve período eles se unem a um grupo grande de refugiados na jornada para o Quênia, mas não demora muito para que os soldados/guerrilheiros encontrem o grupo também, e novamente exterminem todos os que não conseguem fugir, em uma dessas limpezas étnicas monstruosas que estão acontecendo, nesse instante mesmo, pelo planeta, sem a gente nem se dar conta. Os três irmãos conseguem escapar com mais dois meninos: Jeremiah e Paul.

Dias se passam de caminhadas de morte por lugares extremamente hostis, até que eles param em um campo aberto de capim alto pra dormir. Do jeito que a coisa vai, você fica com medo de sair um leão dali e matar todo mundo. Mas eles conseguem descansar. Passa-se uma das cenas mais bonitas na qual o Mamere desenha um quadrado na terra onde ele coloca a mão e repete o nome do pai; Theo coloca a mão sobre a dele e recita o nome do avô, Mamere o do bisavô, e assim sucessivamente até que eles recitam todos os seus ancestrais e, ao fazê-lo, são lembrados de seu lugar no mundo. É como se dissessem que enquanto se lembrarem, eles estão com eles; que enquanto se lembrarem, eles sabem quem são.

Mas na manhã seguinte Mamere se levanta sonolento, sem perceber o exército atravessando a campina. Nos gritos que se seguem, Theo o puxa para baixo, ordena que ele fique deitado escondido com os outros, fica de pé e – fingindo ser Mamere – se entrega aos soldados para salvar os irmãos.

“Você é o chefe agora”, Abital diz pra Mamere, que se desespera com a perda de Theo. “Ele se entregou para que você pudesse viver, então viva.” E assim, depois de muito sofrimento, Mamere consegue levar os demais ao campo de refugiados sudaneses no Quênia, onde eles permanecem por 13 anos esperando pela chance de uma vida melhor nos Estados Unidos – que é pra onde a ONU consegue mandar alguns deles de tempos em tempos.

Quando eles finalmente conseguem chegar nos Estados Unidos, os responsáveis pela alocação dos exilados no país separam a Abital deles sem dó nem piedade. A total frieza em separar famílias e a insensibilidade das pessoas teoricamente responsáveis por facilitar a adaptação deles é muito triste. E eles são pessoas tão boas e inocentes que corta o coração. Mas mesmo que não fossem. Está ali exposta no filme a total incapacidade da sociedade de perceber, entender e aceitar o outro, o diferente – até mesmo aqueles cujo trabalho deveria ser esse!!

E isso me fez pensar: e se fosse eu ali, será que eu teria entendido? Será que eu teria tido sensibilidade e bondade suficientes pra não passar direto? Pra estender a mão?

Tem várias cenas de chamada de consciência e choque de realidade nesse filme, mas tem uma que mexeu comigo – várias na verdade, mas essa ficou na minha cabeça – que é quando o Jeremiah – que consegue um emprego de empacotador de supermercado – é obrigado, todos os dias, a jogar carrinhos inteiros de comida fora (vegetais murchos, coisas que passaram da data de validade, etc). Depois de ter visto, por anos e anos, milhares de pessoas morrerem de inanição na África, fazer isso é particularmente penoso e incompreensível pra ele. “Será que não tem ninguém precisando dessa comida? Me parece errado jogá-la no lixo”, ele diz pro chefe que diz que não quer saber: que ele não pode mais vender a comida no supermercado, então é pra jogar no lixo e pronto.

Semanas depois, o chefe surpreende o Jeremiah ajudando uma mulher pobre a separar, nos carrinhos de descarte, os alimentos que ainda estão em condições de serem consumidos.

“O que diabos você pensa que está fazendo?!?” O chefe berra.

“Não deveria ser negada ajuda àqueles que precisam dela.”

“Eu disse que era pra você jogar a comida no lixo. Por que você não obedece?!”

“Porque é errado.”

“Quem disse?!”

“Jeremiah.”

“Quem diabos é Jeremiah?!?”

“Eu. Meu nome é Jeremiah,” ele diz; no que ele tira o avental do uniforme e vai embora.

Só nessa cena a gente vê o absurdo da sociedade do consumo – que na verdade, é a sociedade do descarte – a total falta de solidariedade e incoerência da máquina social capitalista ocidental – joga no lixo, mas não dá a quem precisa – e a total – e totalmente injusta e cruel – invisibilidade daquela pessoa – “quem diabos é Jeremiah?”!?!

Felizmente, outros acabam se importando o bastante para ajudá-los e oferecer um apoio real, e a personagem da Reese Whiterspoon – a Carrie – consegue trazer a Abital de volta pros irmãos (que mesmo não sendo todos biológicos, se amam e se consideram como se fossem).

Quando finalmente as coisas parecem encaminhadas, uma carta chega do campo de refugiados no Quênia de um homem que se identifica como Theo. Sem nunca ter superado a culpa pelo que aconteceu na campina naquela manhã, Mamere se vê na obrigação de ir até lá verificar se o homem é mesmo seu irmão mais velho, e tentar trazê-lo para os Estados Unidos de volta com ele. O reencontro dos dois é emocionante: eles se reconhecem pelo ritual de lembrança dos ancestrais – as mãos sobre a terra e umas sobre as outras – em uma metáfora para o reencontro de seu lugar nessa vida. Mamere percorre todas as embaixadas de Nairobi em busca de ajuda, de algum país com boas relações com os EUA que interceda pela imigração de Theo, mas todos se recusam.

Sem alternativa, ele mente para o irmão, dizendo que conseguiu e, no dia da viagem, quase na boca do portão de embarque, Mamere passa os seus próprios documentos e passagem para Theo, dizendo: “a partir de agora você atende somente pelo nome Mamere, entendeu?” Confuso, Theo tenta resistir, mas Mamere silencia seus protestos dizendo: “há anos atrás você me deu a vida, agora eu a devolvo a você. Você é o chefe agora.” E assim, Theo embarca para os Estados Unidos e Mamere volta para o campo de refugiados.

🙁

Passei bem uma meia hora olhando pra tela da TV depois do fim do filme, chorando que nem louca.

Que triste… que filme triste… e, o pior de tudo: tudo verdade, realidade, realidade de tanta, tanta gente…

O mundo é um lugar muito triste. Quantas pessoas não vivem essas coisas todos os dias? Quantas crianças não vêem os pais assassinados? Quantos não morrem de fome e sede? Quantos não são condenados a morrer de miséria e epidemias e violência pelo mundo afora?

E o que são meus problemas perto disso tudo?

Nada.

E eu só consigo pensar que eu queria ser uma pessoa melhor, que eu queria poder ser uma pessoa melhor, que eu queria fazer alguma coisa….

Lembrei da frase de encerramento do Lórax (outro filme tudooo: uma animação “pra criança”, mas tão triste, tão rica,  e tão cheia de coisas importantes) – aliás: pausa! Vou aproveitar a multimedia da parada pra colocar uma música do Lórax que tem tudo a ver com tudo (prestem atenção na letra):

(sempre choro)

– mas enfim… retomando: lembrei da frase de encerramento do Lórax, e a uso aqui pra encerrar minha reflexão:

“A menos que você se importe de montão, nada vai mudar. Não vai, não.”

<fonte da imagem: Suricato Seboso>

<link relacionado: www.thegoodliefund.org>

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