Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe

Categoria: Vida | 10 de abril de 2017

Uma vez eu estava ouvindo uma palestra de um cara que dizia que a vida não dá trégua. Que a gente está aqui para aprender e, por isso, nada nunca vai ficar tranquilinho, e fácil, e maravilhosamente lindo por muito tempo. Se ficar, ele disse, é porque o que se tinha pra tirar de aprendizado desse tempo de experiência nessa existência já foi tirado, e é chegada a hora de partir pra outra.

Não sei porque, mas eu acho esse raciocínio reconfortante nos momentos em que parece que a vida tá te sacaneando.

Outro dia mesmo eu estava conversando com um amigo, que, como eu, está tendo um início de ano beeeeem complicadinho. “Deve haver um aprendizado nisso tudo”, ele disse. Eu ri e respondi que é o que tenho repetido pra mim mesma. Eu vejo a merda voando no ventilador e penso: “o que eu tenho que/pra aprender com isso, porra?” Ou, quando a merda é familiar, eu me pergunto: “por que isso está se repetindo? O que eu deixei de perceber da última vez?”

Não pensem com isso que eu virei um exemplo de pessoa zen, porque eu passo longe. Na maioria das vezes, fico só nas perguntas e resposta nenhuma vem. Mas tem dias que nem pra se questionar dá, e seu coração tá tão pequenininho que você só quer se encolher em algum canto e sumir.

Sábado eu tive um momento desses. Acontece muito comigo isso, não sei se com vocês também: você está lá, se divertindo, tudo lindo, jantar, comida e bebida boas, risadas, enquanto, sorrateiramente, alguma coisa obscura, lá das profundezas, vem à tona e, do nada, *BOOOOOOOM*, tudo isso implode e você fica lá, em pé, desnorteada no meio dos escombros e toda machucada.

Fui andando como um foguete de volta pra casa, segurando o choro. Numa esquina, havia um bar com música ao vivo. A moça cantava uma música do Chitãozinho & Xororó: “Evidências”.

Parei e voltei pra escutar.

Há o que parecem dez gerações (quase dois anos), eu estava passando pela fase mais trevas que eu já tive que enfrentar: o decretado e oficializado fim do meu casamento. Nessa época, eu me refugiava na casa de uma amiga que estava passando pela mesma situação. Uma dava força pra outra, ou só fazia companhia, lá no fundo do poço. Uma noite, nós estávamos lá, bebendo e conversando, ela com o violão me mostrando as músicas de-cortar-coração-como-faca-quente-na-manteiga que havia composto, e nós começamos a cantar juntas. Primeiro, as músicas dela. Depois, outras aleatórias, de fossa. E ela: vamos gravar?! E ali, no meio da escuridão bizarra daquele período, nós duas dividimos esse momento maravilhosamente divertido, de cantar, e se ver/ouvir cantar, e morrer de achar graça de tudo isso. Foi um parêntese de respiro, um foguinho aceso no momento mais merda da história da minha vida. E uma das músicas que nós duas cantamos e gravamos era justamente a que a moça do bar cantava, quase dois anos depois, em outra noite de merda: “Evidências”.

A vida é essa coisa engraçada.

Eu fiquei parada na calçada, apertando internamente o coração pra segurar os caquinhos juntos, ouvindo a moça cantar. E era como se ela me dissesse que aquilo não era nada perto do que eu já tive que enfrentar, e que eu já tinha estado em situação muito pior antes e superado, e que mesmo quando você está arrasado e o mundo todo parece uma bosta, coisas boas podem acontecer.

“Vai passar”, eu entendi.

Tudo passa.

 

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