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Pelo direito das(os) “gordinhas(os)” de dançarem pole dance

Categoria: Vídeos | 6 de julho de 2014

A internet sempre tem dessas coisas. De repente surge um vídeo e geral compartilha achando o máximo, sem parar pra refletir sobre a carga bizarra de preconceito que nele habita. Muitas vezes sem nem se dar conta.

Vocês já devem ter visto esse, não? Da “gordinha” que vai dançar pole dance? Caso não, é esse aqui:

Ênfase na cara de nádegas celulíticas dos jurados, por favor. Espremendo, sai preconceito – e nojo – puro.

Moving on…

Sim, legal, a Emma – o nome dela é Emma, e não “gordinha” – arrasa no pole dance. O que me deixa revoltada é a incredulidade da galera. Ela tem braços e pernas funcionais, não? Por que ela haveria de não poder/conseguir dançar pole dance? Aí o povo ainda anarquiza a coisa e divulga o vídeo com chamadas podres do tipo “gordinha desafia gravidade e arrasa no pole dance”. Queridinhos, qualquer um que não caia de cara no chão tentando se rodar naquele troço desafia a gravidade. Descobrimento da pólvora: até mesmo os magros.

Sim, os não-esquálidos podem dançar pole dance. Podem dançar o que quiserem, se quiserem, e o fato de o fazerem não deveria ser motivo de surpresa. O admirável, o espantoso do vídeo não é o fato da Emma ser ótima pole dancer, mas dela ter ido no programa pra ter sua aparência julgada por zilhões de pessoas, ter permanecido confiante e linda no palco e, acima de tudo, não ter vomitado – ou dado um soco – na cara daqueles jurados.

Uma vez, naquele programa de competição de dança americano, eu vi uma moça maravilhosa, que arrasava na dança, ser mandada pra casa por causa do peso. Porque não, eles não estão apenas procurando bons bailarinos, eles querem bons bailarinos esteticamente aceitáveis – “esteticamente aceitáveis”, olha que horror… mas é bem isso mesmo.

Eu já vivi coisas parecidas. Já contei pra vocês do episódio absurdo do estúdio de balé – onde a dona não deixou que eu me matriculasse na aula de balé clássico (e olha que eu nem pretendia ser a primeira bailarina do teatro municipal). Uma vez também fui impedida de entrar pra equipe de Ginástica Rítmica do clube onde eu treinava, mesmo sendo boa, porque – e cito a treinadora – “você é gorda”. Ela disse que me passaria se eu emagrecesse. Outras meninas também receberam a mesma preconceituosa chamada de realidade. Sem ter a intenção e sem coordenarmos nossas decisões, nós formamos um pequeno time de resistência: dissemos não, muito embora quiséssemos, mais do que tudo, entrar pra equipe. Saímos da G.R.D. e nunca mais voltamos – porque não bastava sermos boas: tinha que ter osso aparecendo: todos os ossos, esquelética e gloriosamente expostos. E todas nós dissemos – embora não tão desbocadamente – “foda-se essa merda”. Mas claro, ficamos nos sentindo bolas péssimas a rolar deprimidamente por um bom tempo.

E o que fazer? “Juntar neles”? 🙂 Impor a instauração de um novo padrão estético? “Gordinhos” no poder?

Não… Isso significaria lançar os magros à marginalidade. E nós, “gordinhos”, não faríamos isso. Não, de jeito nenhum. Afinal, “nossos corações são tão grandes como nós”, que aprendemos a ser simpáticos, generosos e pessoas melhores para “compensar” nossa “deficiência estética” – ou assim nos dizem.

Estou sendo, é claro, irônica.

O que podemos fazer é aceitar o que somos, quem somos, ou o que e quem estamos. Gostar de nós mesmos tão completamente que, como Emma, nem quatro pares de olhos cheios de julgamento, representando zilhões de outros, são capazes de nos afetar. À la Valesca: “late mais alto que daqui eu não te escuto”.

Sim, podemos dançar pole dance. Mas isso é fichinha. Isso não é surpreendente. Surpreendente nesse mundo é amar a si mesmo.

Apresentação1

<fonte das imagens que compõem a montagem: We ❤ it! e Google>