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Ciclos de violência

Categoria: Mundo, Vida | 21 de fevereiro de 2017

Dia desses eu estava por aqui com minha filha. Estava no computador fazendo um trabalho e ela estava ao meu lado, distraída com alguma coisa simples, tipo fiapos na toalha de mesa. Como criança é um bicho meio doido, quando dei por mim ela estava com os pés no assento da cadeira, a bunda pro alto – tipo a posição do cachorro na yoga – e a cabeça para algum lugar que não dava para ver. Nem sei como aquilo era fisicamente possível mas, com o poder premonitório típico das mães, eu disse “Mulher, você vai cair”. Ela, claro, me ignorou e eu voltei a me distrair.

A cena deve ter se repetido umas três vezes: eu, me voltando para ela, encontrando a bunda no lugar da cabeça, alertando que ela podia cair, e ela me ignorando.

Não demorou muito, minha atenção foi desviada do artigo que eu não estava conseguindo escrever  pelo barulho da cadeira cedendo…

*barulho breve e seco de madeira arrastando no piso frio*

Um filme de desgraça se passou na minha cabeça, ao mesmo tempo em que eu via, em tempo real e mental, a kida cair, com tudo, de cara no chão.

Silêncio tenso de um milésimo de segundo e…

– UÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ –

O choro da catástrofe encheu a sala. Quem tem filho sabe como é: existe uma linguagem toda particular no ato de chorar de uma criança, um milhão e meio de pequenas modulações que te informam “tô com fome”, “tô com sono”, “quero te encher o saco”, “tô irritada”, “tô triste”, e essa era “emergência grau dez, vezes infinito”.

Caralho.

Uma fúria quase incontrolável tomou conta do meu corpo, de forma que eu me vi paralisada por uns segundos sem saber se eu matava aquela criatura ou socorria. A raiva que eu sentia era tanta que quando eu a juntei do chão, tudo o que eu pude fazer pra não quebrar minha promessa de nunca bater nela foi jogá-la nas almofadas do sofá. Ao fazer isso, eu a virei para mim e o choque de vê-la com a cara toda ensanguentada aplacou minha vontade de esganá-la. Mas, ainda assim, eu não me contive e disse gritando: “Bem-feito pra ti! Quem manda ficar se pendurando na cadeira?!”

A violência das palavras fez eu me arrepender antes mesmo de terminar de falar…

Por que? Por que eu estava fazendo aquilo com a minha própria filha? Será que o susto e a dor que ela estava sentindo já não eram punição suficiente? Por que eu queria fazer com que ela se sentisse mal – ainda pior – por aquilo?

Fui buscar gelo e, enquanto a segurava no colo e pedia desculpas por ter sido brusca, eu me sentia uma pessoa verdadeiramente horrível.

Mesmo assim, ela me desculpou instantaneamente…

Eu não.

É claro que eu vi o filminho da minha infância/adolescência passar todinho na minha cabeça e reconheci toda uma linhagem familiar extremamente agressiva vir à tona ali, em mim. Lembrei daquela história de quando o garoto me carregou pro banheiro dos homens (lembram? Tá aqui nesse post antigo) e minha mãe, cheia de raiva, olhou pra minha cara lívida e disse: “Quem manda…?!”

Eu tinha seis anos na época.

A idade da minha filha agora…

Nossa, como isso me deixou triste…

A gente repete. Repete o que viveu, repete a forma como fomos tratados um dia… E a grande merda nisso é, sem sentir, eu ensinar minha baixinha, que é essa pessoa doce e amorosa, a repetir isso também…

No fim desse dia, depois que ela foi dormir, eu peguei pra assistir uma palestra que uma amiga minha tinha me indicado há muito tempo, mas que, por qualquer motivo, eu ainda não tinha parado pra ver: um workshop sobre comunicação não-violenta.

Logo no início eu já comecei a chorar, e pensei, na hora, que eu tinha que trazer pra cá.

Esse vídeo foi um grande presente pra mim. Algo que me fez parar e repensar muita coisa, que me fez perceber como eu produzo e reproduzo violência, mesmo sem querer, mesmo sem me dar conta. E que me fez enxergar, de forma bem prática, como eu não entendo a grande maioria das minhas emoções, eternamente perdida nesse jogo de apontar dedo – “você isso!!” “você aquilo!!” – que não leva a nada bom. Na palestra, enquanto ele está lidando com o público, ele continuamente pergunta: “qual é o seu sentimento agora?” “Do que você precisa?” E, putz, como é difícil responder. E como é “bolante” perceber que é difícil responder. Afinal, não deveria, né?

Eu queria muito, muito mesmo, que todos vocês assistissem. É algo de fazer bem.

E quem quiser conversar sobre ele depois, pode comentar aqui ou lá pelo Facebook. Seria realmente incrível saber da experiência de vocês.

 

O mundo pós-aniversário

Categoria: Vida | 2 de janeiro de 2017

O título do post é o título de um livro que eu nunca li. Não sei porque pensei nele, mas assim foi, e ali em cima está.

Destinos… 😀

Eu me lembro de uma amiga me contando a história dele, que a partir de um determinado ponto – um grande “e se…” para a personagem principal -, bifurca e segue por duas versões paralelas: em uma, ela concretiza o “e se…”, e em outra, não.

O título do post também poderia ser: “Tinha um aniversário no meio do caminho…” 😀

Atravancando 😀

Pois é. 27 de novembro foi meu aniversário, um aniversário muito, muito diferente do do ano passado. Dá praperceber pelos posts passados: ano passado havia uma euforia de recomeço no ar. Eu estava vivendo a fase corredora – e, por isso, estava relativamente em paz com o meu corpo (as fotos mostram isso. Coisa *rara*) -, estava vivendo aquela empolgação de inícios de relacionamento amoroso, enfim, estava voltada para fora: para saídas, para socializações, para visitas e festas. Nada de preguiça, nem de cansaço. E, com tudo isso rolando, até comemoração de aniversário para mim (!!), por iniciativa minha (!!!!!!!), teve (milagre dos milagres). Com direito a bolo cheeeeio de velas, vestido justo e tudo o mais.

O niver de 2016 foi bem diferente.

Esse ano doeu.

Acho que a dor das rupturas todas que eu vivi desde 2015 se fez mais presente – e outras mais se concretizaram pra fazer pesar. Meus quilos perdidos voltaram pra mim (sempre voltam… rsrs) (celulus também… rsrs); as marcas de expressão ficaram mais fundas no meu rosto; minha expressão, mais cansada; meus sorrisos, menos fáceis. Por dias, qualquer coisa me fazia querer chorar e, no dia 27 em si, mais ainda.

Meu dia começou com duas pessoas me dando coisas que eu realmente queria. Isso me deixou muito feliz, mas também, muito triste. Foi a primeira vez na minha vida em que eu senti que alguém me dava algo pensando verdadeiramente em mim, em que alguém comprou um presente realmente para mim, pensando no que eu iria gostar, no que iria me fazer feliz. Eu estou acostumada a receber presentes que as pessoas compram pensando nelas mesmas, então, viver algo diferente foi impactante. Não sei se consigo me fazer entender… fazer vocês entenderem porque algo assim poderia me deixar triste… É como quando eu estou em um grupo e as pessoas me fazem perguntas e/ou se interessam pelo que eu tenho a dizer – isso nunca cessa de me surpreender.

Mas por que isso seria surpreendente?

Entendem?

Por que o fato de alguém se interessar pelo que eu tenho a dizer deveria me surpreender?

Isso fala de coisas sobre mim e sobre a minha vida. Coisas tristes.

Assim como os presentes.

Minha filha fofa chegou da casa do pai com um bilhetinho lindo, dizendo que eu era a pessoa mais importante da vida dela. Detalhe que, um grande desejo secreto do meu coração sempre foi ser a pessoa mais importante da vida de alguém…

E esse desejo também fala de coisas tristes sobre mim  e sobre a minha vida.

Mas, mais do que tudo, nesse aniversário, eu me senti completa e verdadeiramente sozinha.

Ou melhor, eu me dei conta da total extensão da minha solidão, que é diretamente proporcional à extensão e ao peso das minhas responsabilidades.

E eu desejei com todo o meu coração (e fiquei profundamente triste por isso ser impossível) ter mãe.

Eu senti falta de ter mãe. Senti falta de ter alguém para fazer as coisas pra mim. Pra fazer um almoço de aniversário com minhas comidas favoritas, ou um bolo pra mim, pra eu cantar parabéns…

Até teve bolo. Um bolo que eu fiz, sem vontade de fazer, só porque minha filha queria muito. Quer dizer, eu fiz meu bolo de aniversário pra ela, sabe? E, nossa, como isso me deixou pra baixo…

É…

Às vezes, ter mãe alivia.

Quando a gente ainda está crescendo, a mãe é a pessoa que detém a responsabilidade. A gente pode só *ser*. Viver. Brincar. Dormir. A mãe da gente está ali, e a gente não precisa se preocupar com nada.

Mesmo depois de adulto, acho que a presença de uma mãe tem o poder de fazer a gente se sentir assim… Por uma tarde que seja.

E por uma tarde que seja, é um alívio…

E como eu queria e *precisava*, nesse ano, nesse momento da minha vida, poder sentir isso.

Só que eu não posso. Minha mãe morreu… E o que ficou por esse mundo do que um dia foi minha família nuclear, dissolveu e se espalhou no vento, pra bem longe.

Mas, enquanto eu me dava conta do quão profundamente só e por conta apenas de mim mesma eu estou/sou, uma parte de mim (que eu ignorei rsrs) me perguntava por que isso estava me deixando tão mal. Tipo, como assim? Afinal, não posso eu contar comigo mesma? Não sou eu uma pessoa forte e confiável? E não somos, nós mesmos, as únicas pessoas verdadeiramente permanentes em nossas vidas?

O peso perdurou. O mal estar. O desespero. “Chora”, eu me disse, “deixa sair”. E eu chorei. E tive medo. E tentei trabalhar a aceitação. E falhei… 🙂 E foi só ontem, mais de um mês depois, que a vida me mandou uma mensagem pra encerrar esse post (e pra me dar condições de voltar aqui e escrevê-lo, já que eu o comecei, e o deixei de lado, no dia mesmo do meu aniversário), na forma de um parágrafo de um livro sobre Tarot.

Ele diz assim:

“O ser humano ainda não aprendeu a conhecer as belezas da solidão. Ele está sempre ansiando por algum relacionamento, ansiando por estar com alguém… e esquece, de alguma maneira, que está só… que nasceu só, morrerá só e, não importa o que faça, você vive só. A solidão é algo tão essencial a seu ser que não há maneira de evitá-la. Todos os esforços dirigidos a evitar a solidão, falharam e falharão, porque são contrários a que você se torne consciente de sua solidão… E é tão lindo experienciá-la, senti-la, porque ela o liberta […] do outro. É a nossa libertação do medo de estarmos sós. “Solidão” significa simplesmente ser completo. Você é inteiro, não precisa de ninguém mais para completá-lo. Assim, tente descobrir seu centro mais profundo onde você está sempre só, sempre esteve só… tão pleno, tão completo […] que, tendo provado sua solidão, a dor do coração desaparecerá. Em seu lugar, um novo ritmo de imensa suavidade, paz, alegria e bem-aventurança estará presente. Isso não significa que uma pessoa que está centrada em sua solidão não possa fazer amigos. Na realidade, só ela pode fazer amizades, porque agora isso não é mais uma necessidade, é simplesmente um compartilhar” (OSHO apud PRAMAD, Veet. Curso de tarot e seu uso terapêutico).

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Dar a cara para bater – parte 1

Categoria: Amor Próprio, Vida | 7 de novembro de 2016

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O conflito dessa semana teve a ver com grana. Regra geral nesse país de hoje: quem já não tinha muito dinheiro, agora tem menos ainda.

E eu, nesse bolo.

Aí eu entrei em uma espiral louca de estresse mental, onde fiquei tentando desesperadamente achar o que fazer para conseguir sair do sufoco e, uma das coisas que me veio à mente foi divulgar meu livro para os meus amigos. Algo do tipo: “Então gente, novembro, meu aniversário chegando. Que tal ajudarem a amiga escritora aqui, comprando meu livro?”

Quando a ideia me passou pela cabeça a primeira vez, ela me pareceu razoável, afinal, é um sonho/objetivo meu conseguir fazer da escrita uma forma de sustento. E tá lá o livro, pronto. Feito. À venda. Só que esse “é, pode ser” durou pouco (muito pouco), porque a ideia foi logo seguida por uma onda de ansiedade.

Vejam, eu já falei até aqui sobre o meu livro, mas nunca no meu Facebook pessoal, por exemplo. Pouquíssimos são os amigos que sabem que eu tenho um livro à solta por aí. E mesmo alguns desses, quando me disseram: “comprei seu livro!”, geraram em mim um pavor muito curioso.

No auge desse conflito, eu recorri a uma amiga (que leu o livro) pedindo opinião. Eu falei sobre o que eu estava pensando em fazer e perguntei o seguinte:

“Você acha que o livro é bom o bastante?”

E ela:

“Bom o bastante para quem?”

E mais pra adiante na conversa ela disse – assim, a frase ali solta, única, hegemônica no parágrafo:

“Tem alguma coisa errada com essa pergunta.

Pausa.

Eu respirei… Senti, mais do que pensei…

É . Tem alguma coisa errada com essa pergunta.

“Você acha que o livro é bom o bastante?”

Bem, se eu estou perguntando, é porque eu não sei. É porque eu, embora goste muito da história que escrevi, duvido dela.

Que merda, né?

O lance é que não tem nada a ver com a história, com o produto final que é o livro em si.

É porque **eu** fiz, que eu duvido.

O livro é uma parte de mim. Apesar de ser uma obra ficcional e não contar *a minha história*, por ser algo que eu criei, do nada, com esforço, trabalho, com muito investimento pessoal,  o livro sou eu.

E eu duvido de mim.

Eu nunca acho que o que eu faço é bom o bastante. Eu sempre penso que poderia ser melhor. Então, quando eu pergunto: “Você acha que o livro é bom o bastante?”, no fundo, o que eu estou perguntando é:

“Você acha que eu sou boa o bastante?”

E, é. Tem alguma coisa muito errada com essa pergunta.