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Revisitando coisas já ditas

Categoria: Mundo, Vida, Vídeos | 26 de maio de 2017

Sei lá por qual motivo eu estou com os posts sobre abuso na cabeça. Fico pensando e pensando numa frase que eu escrevi – “é nos limites cinzentos que a gente se perde” – e me perguntando se eu fui clara o bastante.

Essa frase é um alerta para o perigo de certas sutilezas, que acabam mascarando, pra gente e pros outros, a horripilância de certas coisas e situações.

Na minha vida, nenhuma das situações de abuso foi ao estilo trash total-estranho-te-pega-num-beco-te-espanca-e-faz-coisas-terríveis-dignas-de-filme-de-terror. Nenhuma delas. Mas isso não quer dizer que elas não aconteceram, e nem que não causaram estrago.

Refletindo sobre isso, encontrei um vídeo da Jout Jout que eu acho que reforça bem essa ideia, e resolvi trazer pra cá pra complementar.

É um pouco pesado – porque abuso é pesado -, mas vale a pena. Pra pensar. Pra reconhecer.

Porque reconhecimento – poder identificar, poder discernir – é uma parte importante do poder fazer algo a respeito.

Beijos procês.

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe

Categoria: Vida | 10 de abril de 2017

Uma vez eu estava ouvindo uma palestra de um cara que dizia que a vida não dá trégua. Que a gente está aqui para aprender e, por isso, nada nunca vai ficar tranquilinho, e fácil, e maravilhosamente lindo por muito tempo. Se ficar, ele disse, é porque o que se tinha pra tirar de aprendizado desse tempo de experiência nessa existência já foi tirado, e é chegada a hora de partir pra outra.

Não sei porque, mas eu acho esse raciocínio reconfortante nos momentos em que parece que a vida tá te sacaneando.

Outro dia mesmo eu estava conversando com um amigo, que, como eu, está tendo um início de ano beeeeem complicadinho. “Deve haver um aprendizado nisso tudo”, ele disse. Eu ri e respondi que é o que tenho repetido pra mim mesma. Eu vejo a merda voando no ventilador e penso: “o que eu tenho que/pra aprender com isso, porra?” Ou, quando a merda é familiar, eu me pergunto: “por que isso está se repetindo? O que eu deixei de perceber da última vez?”

Não pensem com isso que eu virei um exemplo de pessoa zen, porque eu passo longe. Na maioria das vezes, fico só nas perguntas e resposta nenhuma vem. Mas tem dias que nem pra se questionar dá, e seu coração tá tão pequenininho que você só quer se encolher em algum canto e sumir.

Sábado eu tive um momento desses. Acontece muito comigo isso, não sei se com vocês também: você está lá, se divertindo, tudo lindo, jantar, comida e bebida boas, risadas, enquanto, sorrateiramente, alguma coisa obscura, lá das profundezas, vem à tona e, do nada, *BOOOOOOOM*, tudo isso implode e você fica lá, em pé, desnorteada no meio dos escombros e toda machucada.

Fui andando como um foguete de volta pra casa, segurando o choro. Numa esquina, havia um bar com música ao vivo. A moça cantava uma música do Chitãozinho & Xororó: “Evidências”.

Parei e voltei pra escutar.

Há o que parecem dez gerações (quase dois anos), eu estava passando pela fase mais trevas que eu já tive que enfrentar: o decretado e oficializado fim do meu casamento. Nessa época, eu me refugiava na casa de uma amiga que estava passando pela mesma situação. Uma dava força pra outra, ou só fazia companhia, lá no fundo do poço. Uma noite, nós estávamos lá, bebendo e conversando, ela com o violão me mostrando as músicas de-cortar-coração-como-faca-quente-na-manteiga que havia composto, e nós começamos a cantar juntas. Primeiro, as músicas dela. Depois, outras aleatórias, de fossa. E ela: vamos gravar?! E ali, no meio da escuridão bizarra daquele período, nós duas dividimos esse momento maravilhosamente divertido, de cantar, e se ver/ouvir cantar, e morrer de achar graça de tudo isso. Foi um parêntese de respiro, um foguinho aceso no momento mais merda da história da minha vida. E uma das músicas que nós duas cantamos e gravamos era justamente a que a moça do bar cantava, quase dois anos depois, em outra noite de merda: “Evidências”.

A vida é essa coisa engraçada.

Eu fiquei parada na calçada, apertando internamente o coração pra segurar os caquinhos juntos, ouvindo a moça cantar. E era como se ela me dissesse que aquilo não era nada perto do que eu já tive que enfrentar, e que eu já tinha estado em situação muito pior antes e superado, e que mesmo quando você está arrasado e o mundo todo parece uma bosta, coisas boas podem acontecer.

“Vai passar”, eu entendi.

Tudo passa.

 

Comunicação não-violenta… SQN

Categoria: Relacionamentos, Vida | 24 de fevereiro de 2017

Eis a situação:

Eu, puta dentro das calças.

Imaginem assim, uma pessoa total e verdadeiramente puta.da.vida.

Eu.

Vejam, eu tinha acordado bem. Humor cintilante como o sol.

Tá, péra. Como o sooool talvez não.

Era, assim, um bebê “cintilância”, que estava começando a germinar depois de um período de tensões e brigas.

Aí, vem a pessoa e, ao invés de “bom dia”, é reclamação.

“Bom dia, Namorado!!!” (Leia-se: “Pô, sério que você tá começando o dia assim?”)

Eu ainda estava com uma disposição de tentar ser iluminada.

“Ainda”, no sentido de: “É… não durou”.

Mas, ok. Não vamos nos adiantar.

Eu estava lá, na tentativa.

Sentamos pra tomar café e…. toma-lhe mais reclamação, seguida do par reclamação/cobrança.

Não houve respiração profunda que desse jeito.

O tempo fechou e a “cintilância” virou irritação.

Mas latente.

Aquela coisa quieta (mortal),  que vai inflamando dentro da gente. Cada nova chaticezinha era como uma pelota de álcool gel tacada no foguinho da frustração.

No fim do café da manhã, vocês imaginem.

Eu.

Naquele estado.

Já soltando faísca.

Mas calaada.

Na minha.

Aí, vem a pessoa, tentando dar uma de Marshall Rosenberg, o que seria muito legal, não fosse pelo fato de que aquela tentativa escondia – sorrateira mas inconfundivelmente – uma exigência/cobrança de que eu tentasse também.

Cara…

Pelo menos pra mim, não tem nada menos desestimulante e definitivamente aniquilador (extermínio grau milésima potência) de comunicação não-violenta do que ser **cobrada** de me comunicar não-violentamente.

Isso foi, assim, vááárias pelotas no meu foguinho, mas ok, eu estava tentando tentar.

Mas vocês já tentaram? Gente, é difícil. É difícil daquele jeito quando a gente puxa os dedos – das duas mãos (!!) – pelo rosto abaixo derretendo a face, sabem? Você fica ali, pensando, pensando, caçando palavras e formas de se expressar, aí vem alguma coisa na sua cabeça só pra você perceber que aquilo é violento igual, e você fica vivendo isso de novo e de novo, procurando jeitos de falar, enquanto, ao mesmo tempo, você fica ali, lutando contra esse desejo cada vez mais ardente de mandar a pessoa ir à merda – porque sim, isso sim, definitivamente, seria violento. Só que quanto mais você está ali, tentando encontrar uma forma bacana – gentil – de falar, mais forte esse desejo fica e um “VAI À MERDAAA”, daqueles de encher as bochechas, tá assim, na ponta dos dentes, quase escapando…

E, ali, naquela hora, eu sentia uma frustração do cacete – pra somar com o quadro de “frustrância” geral da porra da manhã – e eu via – sentia, no corpo, em ondas que saíam de mim – a minha impaciência crescendo.

*Respira*Respira*

Aí eu falei. A coisa mais razoável que eu consegui.

E a pessoa:

“Isso não foi muito não-violento.”

*Inspiração loooonga*

Aí, meu irmão, não era mais álcool gel porra nenhuma. Era tanque de gasolina.

E eu? Calaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaafica calada, Kelly, fica calada, fica calada…

“Eu faço o maior esforço e o que eu ganho? Silêncio. Boa.” *sarcasmo estalando*

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

“Ótimo. Mais um dia estragado…” (subtexto: por você)

aaaaada

“Kelly, vamos conversar.”

“CONVERSAR É O CARALHO.”

Pronto. Ladeira abaixo.

Uahahahahahahahahaha