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Pelo direito de doer – mas não morrer por isso

Categoria: Relacionamentos, Vida | 29 de maio de 2015

Uma das coisas mais estranhas quando alguém muito próximo da gente morre é o mundo continuar girando, as pessoas continuarem indo pro trabalho, as rotinas continuarem seguindo, os ônibus e carros continuarem passando… tudo, do lado de fora, continuar exatamente o mesmo: movimento, fluxo, barulho, vida. Você fica parado olhando aquilo tudo e pensa: “como assim??”

A pior coisa é acordar nas primeiras semanas. Existe um intervalo curto, muito curto, entre o acordar e o abrir do olho… É que o sono oblitera o que aconteceu; no sono você esquece… E por um momentinho ali, nesse intervalo, é como se nada tivesse acontecido. Mas aí você lembra. E é como se a pessoa morresse de novo.

Estou usando o exemplo da morte de alguém próximo como metáfora, porque sair de um casamento é bem isso. É uma morte: morte de sonho, morte de plano, de projeto de vida, de coisas nas quais você acreditava, de uma parte de você e do outro.

Mas é morte só de parte de você, e não de você inteira. E dói, claro, mas não há dor que não passe.

Nos arcanos maiores do Tarot, há duas cartas fortes de transformação: A Torre e A Morte:

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As imagens são bem emblemáticas, né?

Você olha e pensa: “eita, é o mundo se acabando” :-D, mas, por incrível que pareça, elas não são cartas com significados ruins. São cartas boas, que sinalizam mudanças pra melhor. Só que, às vezes, pra que certas coisas mudem, um raio tem que cair na sua cabeça uahahahaha 😀

*Tô brincando*

Vocês entendem onde eu quero chegar? 😀 Nem eu sei se estou conseguindo ser clara uahahaha (ontem saí pra afogar as mágoas com uma amiga que também está passando pela mesma situação, e agora estou aqui me perguntando por que (por que, deeeeeeus, por quê??) eu fui beber… 😀 ressaca da porra rsrs).

A história da cerveja me leva onde eu queria chegar.

Quando encontrei essa amiga ontem ela virou pra mim e disse: “como você está? Porque a impressão que eu tive quando você me contou por mensagem foi que você tava bem e feliz pra caralho”.

Não, não estou feliz pra caralho. Mas também não estou cortando os pulsos. E eu acho isso ótimo.

As pessoas esperam da gente um certo tipo de comportamento com relação a certas coisas (não estou falando da minha amiga não, tô falando no geral). Um exemplo: sua mãe morre. Daí, uns dias depois, você está no meio de uma conversa e dá uma risada com vontade. O povo logo te olha estranho, como quem diz: “Ué, tá rindo??? Tua mãe não morreu?!” É como se todo mundo quisesse te ver arrasado, dilacerado, sangrando, aos prantos, catatônico depois de grandes perdas. Mas não tem que ser assim. Não deve ser assim. Você sofre, claro, dói, é péssimo – eu tô aqui, sem conseguir dormir, com dor de coluna, mãos dormentes, tendo crise de ansiedade – mas você não morre. Você não perde a capacidade nem o direito de se sentir feliz, de se divertir, de jogar a cabeça pra trás e dar um gargalhadão bem dado, de ficar bem.

Eu, pelo menos, estou olhando pro que está acontecendo de forma positiva. A imagem geral da minha vida agora é como aquelas cartas ali em cima, mas eu estou muito certa da decisão que eu tomei. Eu tinha que me jogar da janela da torre, sacam? Só que eu não vou me estourar no chão: eu vou passar de fase (que nem aquele jogo de video game do James Bond que, pra passar de fase, a gente tinha que se jogar do precipício com o boneco). Tô fodida, sozinha e sem dinheiro – mas isso vai ser bom pra mim: vai me obrigar a me tornar independente, vai me forçar a aprender a me erguer sobre os meus próprios pés. E eu sou uma pessoa péssima e podre por me sentir empolgada com isso? Não. Eu sou uma pessoa péssima e podre por pensar que agora eu tô na pista e que eu vou super poder sair, me divertir e dar pra quem eu quiser? Não. Isso significa que eu não estou sofrendo? Não. Significa que eu estou sofrendo direito :-D.

Não sei porque tô com essa cena na cabeça – deve ser toda a metáfora de morte etc – uma lembrança, na verdade, de quando minha mãe morreu. Ela foi cremada e eu e o ex fomos buscar as cinzas. Depois fomos até a praia – o lugar no Rio que minha mãe mais gostava – para eu jogar as cinzas dela no mar. Fiquei o caminho todo olhando pro pote plástico no meu colo – pra ser um pote de sorvete só faltava o símbolo da Kibon na tampa. Sério. Quando abri, fiquei olhando aquela areia granulenta e cinza e pensando “putz, isso é minha mãe?” … Daí estou lá, no mar até os joelhos, eu, nessa situação, vendo minha mãe literalmente me escapar por entre os dedos e sumir no vento, quando o ex começa a brigar comigo da areia. Dizendo, irritado, que eu estava fazendo aquilo errado. Gritando que eu tinha que jogar as cinzas a favor do vento e não contra.

(*riso um pouco amargo, confesso, e curto, pelo nariz*)

(merecia um #ProntoFalei essa né? uahahahahahaha que péssimo… :-D)

Lembram da história das três saídas? Mudar, aceitar ou pular fora?

Mudar, não muda. Aceitar eu tentei, mas não deu. Logo, o que resta?

Pois é.

É claro que todo relacionamento tem cagada. Aliás, relacionamento amoroso – casamento então – é pós graduação na arte de aprender a ferir quem a gente gosta. A questão é até que ponto vale à pena e até que ponto a gente pode ou está disposto a se deixar machucar.

 

 

 

 

Pelo direito de… fim (e de um post longo :-D)

Categoria: Relacionamentos, Vida | 25 de maio de 2015

Estava relendo alguns posts passados aqui do blog e esbarrei nessa frase minha sobre o  A Teoria de Tudo – (spoiler!! spoiler!!) (link para o post, aqui).

Lá eu digo que, ao contrário do que faz parecer a divulgação do filme, que ele “não é essa história de amor épica e romântica e transcendente que eles estão dando a entender […]; mas antes, uma história de amor real e que acaba (!)”.

🙂

Só nessa frasesinha já dá pra enxergar toda a construção e ilusão de uma vida inteira 😀 .

Vamos lá. Nesse trecho eu coloco em oposição histórias de amor “épicas, românticas e transcendentes” e aquelas que “são reais e acabam”. Ou seja, não existem histórias do primeiro tipo que *acabam* – e, pelo menos, era isso que eu estava pensando quando escrevi. Mas também tem aí uma noção implícita que me escapou completamente enquanto eu escrevia e que agora eu vejo claramente: que não existem histórias desse tipo na esfera do real.

😀

A primeira posição é uma visão muito Disney da vida 😀 – e eu acho que eu estou longe de ser a única mulher no mundo criada com ela – e a segunda é um sintoma do que estava rolando na minha vida do lado de cá da tela – e já, já eu chego lá. Dá pra perceber, nessas duas frases que eu grifei em itálico ali em cima, o meu percurso real como pessoa fora da virtualidade: da ilusão total (histórias de amor verdadeiro são como filmes da Disney) para a desilusão total (amor verdadeiro é historinha).

😀

E assim eu chego no ponto que eu quero e que eu enxergo agora – uma visão muito mais acertada, a meu ver -: histórias de amor acabam, mas isso não faz delas nem menos românticas, nem menos épicas, nem menos transcendentes.

Eu já falei sobre isso algumas vezes por aqui – sobre a finitude do amor. O que eu vejo agora é só que essa finitude não o desqualifica e nem o destitui de magia, entendem?

Eu fui criada para acreditar que o *amor verdadeiro* – mágico, maravilhoso, indestrutível – era para sempre. E se não fosse assim, não era verdadeiro. Eu fui criada para acreditar que eu devia esperar por ele, e que quando o encontrasse, pronto, tudo estaria certo. Aí eu fui vivendo, fui vendo como são as coisas na prática e comecei a perceber tudo isso como uma grande ilusão – uma grande ilusão coletiva que condenou à frustração muitas e muitas pessoas 😀 (eu inclusive 😀 ) – e que não existia isso. Que *amor verdadeiro* não era vida real.

Eu disse aqui muitas vezes de “amores da vida” de/em “momentos da vida”, e é assim mesmo. Mas todas as vezes que eu disse isso, havia implícito um certo desencantamento, como se esse amor de momentos fosse sempre menos e menos encantador do que aquele do pra sempre. Fins sempre me causaram uma reação dolorida do tipo “nãããããããão!!!”. Quando amigos – casais lindos – se separavam, eu sempre pensava: “como assim?!?!”. Quando filmes big românticos terminavam em fim, isso me revoltava. E aquele final do Soneto de Fidelidade do Vinícius de Moraes sempre me arrasou o coração:

“E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

(Aliás, na minha adolescência, eu lembro de pensar que o Vinícius era um galinha babaca por causa do penúltimo verso uahahaha)

Mas agora eu enxergo diferente. Agora eu enxergo com olhos mais maduros. Mas só enxergo também porque o meu pra sempre acabou…

Quem me acompanha sabe que eu “juntei meus paninhos” com o meu primeiro (e único) namorado, e que nós passamos os últimos dez anos juntos.

E agora acabou.

E ver que acabou – aceitar que acabou – foi um processo longo e doloroso, não só por eu  ter que abrir mão do meu relacionamento (e toda estabilidade e segurança que vêm no pacote) mas também por ter que abrir mão de uma parte muito grande de mim mesma – e, gente… como dói…

E o que tudo isso tem a ver com autoestima?

Tudo.

Eu não tenho nada. Não tenho pra onde ir. Não tenho dinheiro. Não tenho reserva nenhuma, margem nenhuma de contorno, nem nenhum plano B. Terminar, além de só e machucada, me deixa literal e profundamente fodida em termos gerais de vida. Mas é o que eu tinha que fazer.

Por mim.

Por amor a mim.

Pra que eu possa ser o tipo de mulher que eu quero que a minha filha tenha como exemplo.

Hoje eu olho pra trás e posso ver como e onde o processo começou. O fim da minha história não foi impetuoso e enfático como um bater de porta, mas lento, gradual e sofrido como uma partida de navio: você fica ali parado no porto olhando, e o navio vai indo… vai indo… vai se afastando devagarzinho… vai indo embora… E você acena, e acena, acena até o braço doer… até o braço ficar dormente… até não ter mais nada pra olhar além de horizonte. Até que, lá pelas tantas, alguém chega, te cutuca no ombro e diz: “vai embora. Não tem mais nada pra ver aqui”.

No meu caso, essa cutucadinha de chamada de realidade não veio na forma de uma pessoa, mas de vários processos. O blog é um deles – eu precisava me fortalecer pra ver, precisava estar inteira pra pular fora. É curioso que eu tenha começado o blog justamente quando as coisas estavam mais escuras: ali, logo após o acontecimento que deu partida nos motores do navio, digamos assim. Esse, claro, foi feio, foi sério, foi como a morte de algo dentro de mim – e como toda morte, exigiu um trabalho de elaboração de luto para que eu pudesse fazer as pazes com a perda.

Pra mim, esse trabalho foi o blog.

A minha antiga terapeuta usava uma metáfora pra falar das mágoas que a gente carrega: ela dizia que cada um de nós leva uma mochila nas costas recheada de passado e coisas ruins. E que o tempo vai passando e a gente vai enchendo, enchendo a mochila de mágoa, até que o peso é tão grande que a gente não consegue andar pra frente.

Esse blog foi a maneira que eu encontrei de esvaziar a minha mochila – acho até que de me livrar dela mesmo, de largá-la no chão. Pra seguir em frente.

Um pouco antes de eu terminar, eu estava na estação de metrô e precisei correr pra alcançar a porta do vagão. Mas eu não estou falando de uma corridinha tímida, social. Eu **corri**: joelhos pra cima, bem altos, pernas bem afastadas, vestido estalando atrás de mim, cabelo… – bom, o cabelo ficou onde estava mesmo uahahaha mas se ele fosse liso e flutuante, teria chicoteado e ondulado no vento :-D. *Corri* como não me lembrava de ter corrido há muito, muito tempo. E correndo me senti desprovida de peso, sem mochila… livre…

E ali eu soube que tudo ficaria bem.

Minha história com o meu primeiro (mas que não será único) namorado acabou – acabou romanticamente, porque nós temos uma filha e estamos unidos por isso pro resto das nossas vidas – e tudo bem… Isso não desqualifica a nossa história. Não tira a magia de certos momentos. É claro que teve coisa feia, mas todos nós somos um lado sombra… E nada disso tira o encanto. Só torna a história real… E tudo bem. Ela ainda é épica e transcendente, e eu vou levá-la comigo… pra sempre.

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<fonte da imagem: We ♥ it!>

Tropeçando num desabafo

Categoria: Mundo, Relacionamentos | 5 de fevereiro de 2015

O amor tem sido temática recorrente nos últimos posts e não sei muito por que. As coisas vão vindo e eu vou escrevendo. Talvez, como várias pessoas queridas estejam passando por términos e situações complicadas; talvez porque mesmo a minha situação não seja lá muito simples; vira e mexe eu tropeço em textos e filmes que trazem o amor pro mundo da autoestima. Mundo este, aliás, por onde o amor sempre transita. É nas relações amorosas que nossas questões e carências ficam mais evidentes; é nelas que as coisas que enterramos, que temos escondidas lá no fundo, emergem; e são essas relações, principalmente, que condenamos a mortes lentas ou execuções expressas quando falta amor por nós mesmos.

Hoje, estava vasculhando a internet procurando por notícias sobre a tempestade que está chegando no Rio, quando encontrei o Desabafo sobre o Amor, do Luiz Menezes. Eu já estava pensando num post – que ia ser sobre berinjela 😀 – e resolvi mudar pra trazer esse texto pra vocês. Talvez seja porque eu ainda estou com o coração partido de ter assistido o A Teoria de Tudo – (spoiler!! spoiler!!) que não, não é essa história de amor épica e romântica e transcendente que eles estão dando a entender na divulgação do filme; mas antes, uma história de amor real e que acaba (!) – e ainda não tenha conseguido digerir uma das falas mais devastadoras de um script que eu já ouvi/vi no cinema – “eu amei você”: ênfase no passado… e aí, morremos de dor -; mas, seja pelo motivo que for, o texto é bom e tem a ver com a temática do blog e com coisas que nós já andamos conversando por aqui; então, vamos a ele.

O Luiz Menezes começa dizendo que o amor não é, nem nunca foi, justo.

“O amor é aquele carinha da sua escola, da primeira série, que te xingava de um milhão de palavrões infantis só porque você tinha os dentes da frente abertos”, ele diz. “O amor é aquela caixa de morangos que parecem estar maravilhosos e, quando você abre, descobre que todos os que estavam no fundo estão podres. O amor é aquela seção de calças de cintura alta perfeitas, tamanho 32, que não cabem nem mesmo em modelos”. E continua:

“O amor não é justo. E, talvez, o problema resida não no sentimento em si, e sim no timing. Duas pessoas, quando se encontram, têm a possibilidade mínima de se encontrarem no mesmo estágio de vida. Não importa se você é magra, loira e tem os olhos azuis, se o cara não tá a fim de namorar agora. Não importa quantos gominhos você tenha na sua barriga malhadíssima, se o outro te acha um saco. Conheci muita gente e me apaixonei por cada uma delas – paixão é sim, uma forma mínima de amar, por menor que seja. Conheci gente demais em tempos errados demais. Hoje, percebo o quanto estive errado em cultivar mais expectativas do que a mim mesmo. Descobrir-se é a primeira etapa do processo “amar”: amar a si mesmo. Amar quem você é, na essência. Decidi aos nove anos de idade que iria ser publicitário. Hoje, percebo o quanto me envergo em caminhos diferentes e alternativos, por poder, livremente, ser o que sou. Cada um de nós deveria, antes de tudo, descobrir-se. Abrir-se ao mundo. Há muito a ser explorado, tanto em sua alma, quanto em seu corpo, quanto em seu bairro – imagina o quanto pode haver no mundo inteiro, então. E, o amor (ok, papo de auto-ajuda, mas que jamais deixará de ser verdade) só é possível quando descobrimos que o outro está ali para somar, e não completar. Não podemos enxergar no outro qualidades que sentimos não existir em nós mesmos – o que cheira a inveja – e muito menos esperar que o outro nos trate como uma mãe ou um pai. Carência demais é doença. Agarrar a primeira coisa que se vê só mostra o quão fraco e necessitado você se torna a cada segundo em que está sozinho. Desejar a companhia de alguém é uma coisa; imaginar o outro como um escravo particular para curar suas inseguranças é outra […]. Vá ser feliz com você mesmo. A única coisa que te merece é o mundo – não somos prêmios particulares, nem bônus de celular, nem números da Telesena. Somos indivíduos que, querendo ou não, doendo ou não, nascemos e morremos sozinhos. Encontrar alguém que, ao invés de nos roubar, queira nos acompanhar nessa jornada, é sua árdua missão particular – recebe-se o que se é refletido. Se atrás de você só tem gente louca, quem está de ponta-cabeça é você (nota particular). Descubra-se. Valorize-se em todos os seus trejeitos. Use algo mais curto (ou mais comprido). Dance. Viaje. E, quando, por poesia – por descuido não, por favor! -, alguém queira ficar, que seja para acrescentar.

Porque o amor não é justo. Mas ele há de acontecer, um dia”.

🙂

E pra encerrar esse post que é meu mas que está sendo construído com a voz de outros, faço recurso do Ferreira Gullar quando ele diz:

“A vida é louca. A vida é pouca. Mas não há senão ela”.

E completo: pra você, não há senão a sua.

 

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<fonte do texto do Luiz Menezes: http://lounge.obviousmag.org/sete_horas/2014/12/desabafo-sobre-o-amor.html#ixzz3Qt82mtJZ>

<fonte da imagem: We♥it!>