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Amor de ficção

Categoria: Relacionamentos | 2 de junho de 2017

Há um tempo – meses! – começo, paro, apago, deixo pra outro dia… recomeço, paro, apago… e assim sucessivamente, de novo e de novo, um post sobre relacionamentos. Com alguns posts é assim. Demora a sair. Tem um tempo pra maturar. Às vezes, acontece. Às vezes, não sai do lugar.

Minha vida, principalmente a afetiva, andou mal das pernas. Muita coisa aconteceu: muita mágoa, muito desgaste. E o meu relacionamento, que começou de coisa boa, de fazer bem, adoeceu… E começou a fazer mal… De um jeito e de tal forma que mudar (eu, ele e o relacionamento como um todo) parecia impossível. Nessas horas, a gente entra no círculo maldito infinito das acusações (você isso, você aquilo…), e a negatividade infiltra e contamina tudo, e só o que a gente vê, escuta e sente é o que está “””errado”””. E aí, você se vê vivendo essa coisa insuportável e insustentável de um atacar-se/defender-se/ferir-se mutuamente diário, e se pergunta: “Pra quê, isso? Pra quê?! Não dá mais. Acabou!” E, o.k., isso seria relativamente simples, não fosse essa coisa incômoda e contraditória que é o amor que você sente. Mas que entra no turbilhão também, já enfraquecido e posto em dúvida: “Será que é amor isso? Se a situação chegou a esse ponto, se as coisas estão dessa maneira, será que isso é amor? Como eu posso ainda amar essa pessoa depois de tudo o que aconteceu?”

Os questionamentos são sempre válidos e necessários – muito embora doloroooooosos pra todos os envolvidos – porque a gente tende a se enredar e se embolar numas situações muito loucas, e tende a acreditar numas histórias – seja de terror (o outro é o mauzão vilão), seja de fantasia romântica (o outro é *o* príncipe) – super elaboradas e convincentes que a gente conta pra gente mesmo, de novo e de novo, e que só fazem a gente se meter (também pra ser entendido como *criar*, *fazer acontecer* – vamo lá, galera, auto responsabilidade) em furada.

No nosso caso aqui, a relação doente foi terminada, e nós entramos num tempo pra pensar no que sentíamos um pelo outro, se queríamos ou não continuar na vida um do outro, e, se sim, de que forma…

Gente…

Que merda.

Eu chorei oceanos de dor.

Eu me lembrava da gente, no passado, no início, olhando um pro outro e lacrimejando de felicidade de ter se encontrado nessa Terra e, puta que pariu, eu não podia acreditar – e como me doía! – que tivesse acabado. Foi dilacerante ver esse sonho de futuro conjunto ser soprado pra longe pelo vento da carência afetiva, do egoísmo, da cegueira emocional, do narcisismo, das repetições, das projeções, do simplesmente não saber como construir **e manter** uma relação saudável…

(E, convenhamos, nesse mundo, nessa sociedade, quem, de fato, sabe? Eu, certamente, não tive exemplos disso)

A partir desse ponto, na história, foram muitos os desdobramentos. Muita coisa aconteceu: cagada, estresse (elevado à milésima potência), brigas, guinadas de vida muito loucas, lições aprendidas, e até algumas conquistas bastante importantes. Mas onde eu queria chegar com esse post, é numa música (de fossa, claro :-D) do Bob Dylan que eu ouvi trezentas milhões de vezes nessa fase, e que não me saía da cabeça, e que me fazia chorar a alma (olha essa letra, gente!!!):

Eu ouvia isso e chorava, chorava, choraaaaava de soluçar. Porque essa música fala do dar-se conta que, às vezes (muitas), a gente espera do outro ser algo que ele não é, ou espera do outro fazer coisas que ele não pode e nem tem como fazer. E a gente continua querendo mesmo assim. De qualquer jeito. Tipo: “não importa se isso não é o que você é. Seja o que e como eu quero que você seja. Faça o que e como eu quero que você faça. Faça-me feliz. Desse jeito (o meu jeito)”. E aí um véu se instala entre a gente e o outro, e tudo o que a gente enxerga é a ficção do que é o outro – que é, no fundo, a fantasia do que a gente espera que o outro seja (e que só existe e só vai existir na nossa cabeça): essa pessoa-sonho (encaixe perfeito, metade da laranja, metade do pingente de coração) que vai suprir todas as nossas necessidades, preencher todos os buracos, dar todo o apoio, suporte e acolhimento, e ser perfeita no sentido de ser do jeitinho que a gente quer ou acha que precisa. 

E, aí, acaba que o que a gente diz/passa a amar, não é a realidade do outro, mas um outro fictício (que existe e persiste com toda força nas nossas expectativas). Ou ainda, a esperança daquilo que o outro pode se tornar. Nesse caso, nós nos vemos como os fodões-das-galáxias, aqueles que vão transformar (!) – consertar (!!) – salvar (!!!) o outro desse terrível destino que é não serem como nos nossos sonhos (…).

Foda né.

Muita decepção se faz assim, galera. Muita desilusão. Muita mágoa. E, no fim, é tudo sofrimento desnecessário, porque, não importa o quanto a gente grite, se descabele, se debata, esbraveje, certos buracos só a gente pode preencher dentro da gente. E, no fundo, só nós mesmos podemos nos fazer felizes. E, assim, ser felizes com o outro, e não por causa dele.

Essa semana eu vi dois vídeos que tocam nessas questões.

Um é o de um rabino falando sobre o que é (e o que a gente acha que é) amor:

E, o outro, é um da monja Coen, que eu postei na página do blog, lá no Facebook:

A monja diz: “se plantou semente de melancia, não vai colher figo”.

É sobre esse dar-se conta que fala a música do Bob Dylan. Ele tá dizendo pra mulher: “eu não sou um figo, babe”, (uahahaha) “não adianta. Eu não sou um figo. Eu sou uma melancia”. E é uma coisa tão simples, que é inacreditável que seja tão difícil de ver/perceber/assumir.  Mas é difícil, e é, porque é muito doloroso, gente. Tanto é doloroso perceber que o outro não pode ser/não é o que você quer, quanto é doloroso perceber que a gente não pode ser/não é o que o outro quer.

Não por muito tempo…

Amores de ficção não se sustentam (pelo menos, não de forma saudável e benéfica para todos os envolvidos), porque a ficção não resiste muito tempo no confronto com o real do dia-a-dia.

Pra construir efetivamente alguma coisa boa com alguém é imprescindível enxergar com clareza a realidade do que é o outro.

Mas, mais imprescindível ainda, é enxergar com clareza a realidade do que a gente é.

 

 

 

 

 

 

“Críticas construtivas” (ênfase nas aspas)

Categoria: Relacionamentos | 25 de abril de 2017

Eis a situação:

Um casal conversa. A mulher, que havia recebido um dinheiro inesperado, pondera sobre o que fazer com ele e pede a ajuda do homem para pensar junto:

“Eu poderia chamar alguém para tapar os buracos na parede que os cachorros fizeram”, ela diz. “Ou mandar consertar as rachaduras de vazamento na parede do quarto… Ou trocar de colchão, já que, o que está aí, está velho e faz as minhas costas doerem… Ou ajeitar o sofá, que está todo rasgado… Ou ajeitar as cadeiras da mesa da sala, que estão todas desmontando…”

Segue a lista. Todos os itens, nesse nível.

Quando parece que tudo o que está quebrado, furado, vazando, descascando, etc. foi mencionado, ele vira pra ela e diz:

“Você podia aproveitar e ir no cabeleireiro”.

(?!?!?!?!?!?)

Aí, dentro da mulher, como né?

*Pausa tensa*

“O que você quer dizer com isso?” Ela pergunta, já num tom de vai-dar-merda.

“Nada, ué. Seu cabelo está ressecado, só isso”.

O tempo fecha no rosto dela e suas palavras saem com a lentidão do que está prestes a explodir:

“Em algum momento eu expressei algum tipo de insatisfação com o meu cabelo?”

“Não. E eu adoro o seu cabelo. Mas acho que ele precisa de mãos profissionais. É só uma sugestão, uma crítica construtiva. É cuidado”.

Nessa hora, olhando pra cara dela dá pra ler claramente o *crítica construtiva e cuidado é o caralho!!* que não sai, mas que está inegavelmente ali.

A briga come entre os dois.

Ele dizendo que ela está fazendo tempestade em copo d’água e que não tem problema nenhum ele “expressar preferências”. Ela, revoltada com o absurdo de tudo isso.

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Vamos lá.

Muita merda nessa vida é dita e feita sob os rótulos da “crítica construtiva” e do “cuidado”.

Crítica construtiva é quando eu percebo que o outro tem uma necessidade ou uma vontade – que é *dele*, e não *minha* imposta a ele – que ele está tendo dificuldade em concretizar. Diante dessa dificuldade, talvez eu tenha sugestões para dar – claro, ***se*** a pessoa quiser sugestões – de coisas que possam ajudar a pessoa a conseguir, ou a pensar em formas de conseguir, aquilo que ela quer. Isso é crítica construtiva.

Cuidado (para) com o outro é quando eu estou ciente e consciente das necessidades **do outro** – necessidades *dele*, e não *minhas* impostas a ele -, e faço coisas – que eu posso e **quero** – para atender/suprir essas necessidades. Isso é cuidado.

Logo, o homem do diálogo não estava nem fazendo “críticas construtivas”, nem “cuidando” da mulher. O que ele estava fazendo era expressar o desejo de que ela atendesse ou suprisse as necessidades estéticas dele (!!!). Necessidades estéticas que eram só dele, e não dela. Isso sem falar no contexto, né? Bem diferentes as prioridades dos dois…

Enfim…

Gente, ninguém tem que ser o projeto estético de ninguém. Ninguém tem que fazer intervenções no próprio corpo de nenhum tipo para atender vontades/necessidades que são só de outros, e não dos próprios. Ninguém!!!! Se isso, em algum momento, for posto para vocês de forma impositiva, reajam! Coloquem a pessoa no seu devido lugar e/ou pulem fora! Isso é desrespeito.

Existem inúmeras maneiras não impositivas e não desrespeitosas de “expressão de preferências”. Uma delas, que é maravilhosa e funciona que é uma beleza pra todos os envolvidos, é o elogio (sincero, claro). Quando a pessoa com quem você se relaciona, coloca uma roupa, ou faz alguma coisa no cabelo, ou pinta a unha, ou faz depilação ou algo assim (***porque quer***), e você gosta *e elogia*, ela aprende de uma forma super gostosa, sobre as suas preferências e necessidades estéticas. Assim, quando ela quiser que você a ache mais atraente e bonita, ou quando ela quiser se sentir mais atraente e bonita perto de você, é bastante provável que ela vá se arrumar ou fazer coisas considerando essas preferências. Mas olha só que legal: não por obrigação, não por insegurança, não por imposição, mas por vontade própria.

E isso faz toda a diferença do mundo.

E pra quem não entender, vamo lá, cartãozinho do Buda:

 

 

 

 

 

 

 

 

Comunicação não-violenta… SQN

Categoria: Relacionamentos, Vida | 24 de fevereiro de 2017

Eis a situação:

Eu, puta dentro das calças.

Imaginem assim, uma pessoa total e verdadeiramente puta.da.vida.

Eu.

Vejam, eu tinha acordado bem. Humor cintilante como o sol.

Tá, péra. Como o sooool talvez não.

Era, assim, um bebê “cintilância”, que estava começando a germinar depois de um período de tensões e brigas.

Aí, vem a pessoa e, ao invés de “bom dia”, é reclamação.

“Bom dia, Namorado!!!” (Leia-se: “Pô, sério que você tá começando o dia assim?”)

Eu ainda estava com uma disposição de tentar ser iluminada.

“Ainda”, no sentido de: “É… não durou”.

Mas, ok. Não vamos nos adiantar.

Eu estava lá, na tentativa.

Sentamos pra tomar café e…. toma-lhe mais reclamação, seguida do par reclamação/cobrança.

Não houve respiração profunda que desse jeito.

O tempo fechou e a “cintilância” virou irritação.

Mas latente.

Aquela coisa quieta (mortal),  que vai inflamando dentro da gente. Cada nova chaticezinha era como uma pelota de álcool gel tacada no foguinho da frustração.

No fim do café da manhã, vocês imaginem.

Eu.

Naquele estado.

Já soltando faísca.

Mas calaada.

Na minha.

Aí, vem a pessoa, tentando dar uma de Marshall Rosenberg, o que seria muito legal, não fosse pelo fato de que aquela tentativa escondia – sorrateira mas inconfundivelmente – uma exigência/cobrança de que eu tentasse também.

Cara…

Pelo menos pra mim, não tem nada menos desestimulante e definitivamente aniquilador (extermínio grau milésima potência) de comunicação não-violenta do que ser **cobrada** de me comunicar não-violentamente.

Isso foi, assim, vááárias pelotas no meu foguinho, mas ok, eu estava tentando tentar.

Mas vocês já tentaram? Gente, é difícil. É difícil daquele jeito quando a gente puxa os dedos – das duas mãos (!!) – pelo rosto abaixo derretendo a face, sabem? Você fica ali, pensando, pensando, caçando palavras e formas de se expressar, aí vem alguma coisa na sua cabeça só pra você perceber que aquilo é violento igual, e você fica vivendo isso de novo e de novo, procurando jeitos de falar, enquanto, ao mesmo tempo, você fica ali, lutando contra esse desejo cada vez mais ardente de mandar a pessoa ir à merda – porque sim, isso sim, definitivamente, seria violento. Só que quanto mais você está ali, tentando encontrar uma forma bacana – gentil – de falar, mais forte esse desejo fica e um “VAI À MERDAAA”, daqueles de encher as bochechas, tá assim, na ponta dos dentes, quase escapando…

E, ali, naquela hora, eu sentia uma frustração do cacete – pra somar com o quadro de “frustrância” geral da porra da manhã – e eu via – sentia, no corpo, em ondas que saíam de mim – a minha impaciência crescendo.

*Respira*Respira*

Aí eu falei. A coisa mais razoável que eu consegui.

E a pessoa:

“Isso não foi muito não-violento.”

*Inspiração loooonga*

Aí, meu irmão, não era mais álcool gel porra nenhuma. Era tanque de gasolina.

E eu? Calaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaafica calada, Kelly, fica calada, fica calada…

“Eu faço o maior esforço e o que eu ganho? Silêncio. Boa.” *sarcasmo estalando*

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

“Ótimo. Mais um dia estragado…” (subtexto: por você)

aaaaada

“Kelly, vamos conversar.”

“CONVERSAR É O CARALHO.”

Pronto. Ladeira abaixo.

Uahahahahahahahahaha