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Pelo direito à autoconfiança sexual

Categoria: Mundo, Vida | 12 de agosto de 2016

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<Fonte da imagem: Tumblr.>

Já tem um tempo, eu escrevi um post por aqui sobre masturbação.

Deixa eu catar…

Hmm…

Aqui!

Pois é.

Escrevo novamente, não exatamente sobre masturbação mas um assunto correlato: Pompoarismo (!!!).

Começo reforçando que meu olhar é o da “perspectiva mulher” porque, bem, sou uma. E sei como é.

Mulheres, em geral, são criadas para acharem que conhecer o próprio corpo é errado, que menstruação é feio, que secreções corporais são nojentas, que se excitar, buscar prazer, satisfazer-se é feio, etc., etc. Existe esse teatro maluco onde colocam as meninas no papel de princesas Disney, que não suam, não arrotam, não peidam, não fazem cocô e não – nã-nã-ni-nã-nã -, não transam. Elas todas têm que fingir que são esses E.T.s diáfano-angelicais que trazem bebês ao mundo por pura magia.

Enquanto meninos são estimulados desde pequenos a serem os pegadores, consumidores de pornografia (e eles também pagam lá seu preço por isso), meninas crescem ouvindo que precisam se comportar, que têm que sentar de perna fechada (porque, deus o livre, ser vista por aí de perna aberta e despertar o desejo de algum maluco, né? Meninas que se previnam e evitem provocar homens por aí – tudo culpa delas. Tudooo!!) (Alerta da ironia que pinga *plink*plink*) (Precisa?… Bom, é bom não arriscar *rsrs*), que têm que se vestir assim ou assado, falar assim ou assado, e têm que ficar quietinhas. Serem quietinhas. Boazinhas. Não serem “fáceis”. Não serem “putas”. E toda a sorte de coisas repressoras, moralistas, sustentadoras desse sistema machista de merda que todo mundo está careca de conhecer.

Resultado?

Muita gente frustrada, infeliz, que não sabe o que é ter prazer sexual. Muita gente que não consegue atingir o orgasmo e acha que tem alguma coisa errada consigo mesma. Muita gente insegura. Muita gente que acha que sexo não é nada demais, que não faz diferença. Muita gente olhando pro teto, enquanto o cara tá lá à toda, pedindo mentalmente pra ele gozar logo porque, putz! Nin-guém me-re-ce.

Mas não tem que ser assim.

Ainda que você escolha (porque ***quer***) se casar virgem com alguém, a sua primeira vez (e todas as subsequentes) não tem que ser uma merda. Se você não goza, não é porque você é frígida ou tem algum problema fisiológico. E se você acha que sexo tanto faz como tanto fez, bem, saiba que pode ser bem –

beeeeem –

diferente.

E parte do processo pra descobrir e vivenciar essas coisas é se livrar do bando de bosta que enfiam nas nossas cabeças.

Masturbar-se entra nessa porque, além de quebrar tabus aprisionadores e limitantes, promove autoconhecimento corporal. E conhecer-se ajuda muito. Conhecer o próprio corpo, saber do que se gosta, ficar à vontade com ele (o próprio corpo, eu digo) e, por conseguinte, consigo mesma, é um grande facilitador – além de um belo booster de autoconfiança nesse sentido. Afinal, saber-se capaz de *se* satisfazer é, definitivamente, *empoderador*.

Mas, vamos lá,  esse não é outro post sobre masturbação. Eu quero mesmo é falar sobre pompoarismo –

pra ajudar a transformar geral em deusas do sexo! 😀

*Uahahahahaha*.

Tô brincando :-D.

Mas não totalmente :-).

Pompoarismo é uma técnica oriental bastante antiga, derivada do tantrismo, que consiste em promover o domínio da musculatura circunvaginal. Através de exercícios, a mulher trabalha os músculos da vagina, deixando-os sarados e sinistros, para assim “evoluir” (na vibe PokemónGo) para uma entidade sobrenatural estranguladora de pênis :-D.

*Uahahahaha*

Zoando, claro.

Mas, de novo, não totalmente :-).

Agora sério:

Muito embora a principal causa para a prática do pompoarismo seja a busca por prazer – ou maior prazer – sexual, o uso dessa técnica traz uma série de benefícios em termos de saúde, como, por exemplo, prevenção (ou melhora) de flacidez vaginal, problemas de lubrificação e incontinência urinária. Mas não é por causa deles que eu resolvi falar sobre isso e sim porque, assim como a masturbação, praticar pompoarismo dá uma baita turbinada na nossa autoconfiança no tocante à sexo – além de fazer o ato sexual se tornar mais prazeroso. Ah! E o legal também: você pode até chegar a um orgasmo durante os exercícios :-D. Assim, como quem não quer nada :-). O que torna a coisa toda bem mais interessante.

Há relatos de pompoaristas sinistras que seguram canetas (!) e escrevem (!!!) com as vaginas, o que eu acho particularmente mais bizarro do que caramba-que-máximo-quero-fazer-isso-também. Mas o exemplo vale pra dar uma noção do nível de habilidade e controle da vagina a que se pode chegar.

Eu não lembro como descobri o pompoarismo. Eu tinha uns vinte e poucos quando comprei um “curso à distância” que consistia de uma apostila perebenta que mandavam pelo correio :-D. Li quase nada dela – que ainda habita a minha zona de papéis, em algum lugar do esquecimento – e não fui muito pra frente nos exercícios, não. Às vezes praticava, às vezes não, e assim a coisa foi, até não ir mais.

Daí, no mês passado, estava eu na sexshop, esse lugarzinho mágico. Conversa vai, conversa vem, a atendente mencionou que a dona da loja dava cursos de pompoarismo.

“É?!?! Que legal!!!”

Super deixei meu telefone e, passadas algumas semanas, lá estava eu, numa tarde de sábado, com mais 15 mulheres.

Tenho que falar algo sobre essa loja: a dona é uma mulher empoderadérrima e a atendente/gerente idem. Sei que o que vou dizer vai parecer estranho, mas elas fazem do ambiente algo acolhedor e familiar :-D. É bem legal. E foi assim na reunião. Foi uma coisa metade curso, metade vamos-conhecer-os-produtos-da-loja – claro, jogada comercial, mas interessante porque a mulherada se soltou e começou a trocar dúvidas e experiências, medos, desconfortos. De repente tava uma perguntando pra outras como é que fazia sexo oral, outra atestando – pra galera que tava franzindo o rosto pras bolinhas tailandesas – que sexo anal podia ser prazeroso, as mulheres mais velhas comprovando pras mais novas que super havia vida sexual pós sessenta, enfim, do nada aquilo se tornou uma reunião de amigas, dividindo intimidades e angústias, ajudando umas às outras, todas empolgadas com a técnica – e com os géis e sprays e brinquedinhos :-D.

Todo mundo saiu de lá significativamente mais pobre :-D, mas mais leve (em muitos sentidos) e mais segura de si, também.

No curso, uma das meninas reclamou que, tanto a maioria dos produtos, quanto a maior parte das justificativas e incentivos dados pela professora, focavam no prazer masculino – pra surpreender/satisfazer o homem (marido/namorado/peguete/bla), “pra deixar o cara looooouco” etc. etc. Frutos todos da sociedade machista que somos, isso não é de surpreender. Entretanto, pompoarismo não é isso. É algo que funciona tanto pra você, quanto para o seu parceiro.

Dentro do contexto do blog até, eu também não excluo o “querer dar prazer ao outro” como motivador válido. Isso porque, assim como saber-se capaz de *se* satisfazer é empoderador, saber-se capaz de dar prazer ao outro também é – sem passar por cima de si mesmo, nem dos próprios desejos e limites, claro (!!!!!), senão *não funciona*.

A verdade é que existe algo de poderoso na sexualidade – tanto pra te arrasar, quanto pra te colocar pra cima. Então por que não a explorar com a segunda opção em mente?

(Sintam-se livres para comentar e perguntar!!!)

(Beijos)

Pelo direito de simplesmente *ser* no mundo

Categoria: Mundo | 7 de julho de 2016

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<Fonte da imagem: www.ideiademarqueting.com.br>

Oi, gente!

Acordei pensando no blog – tenho pensado bastante nele, mas nunca consigo terminar de escrever o que começo. São tempos meio caidinhos por aqui.

Mas enfim, acordei e peguei o telefone (é uma droga esses hábitos pós-modernos). Estava lá, deitada na cama, olhando coisas a esmo, quando vi um post compartilhado de uma amiga que falava exatamente sobre um dos tópicos de assunto que eu tinha em mente pra escrever pra vocês. Reproduzo aqui então a postagem e depois comento:

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<Fonte: Facebook>> Fernanda Abreu>

 

Esse texto conversa com um outro, que eu também li essa semana, sobre o fato de os seres humanos da atualidade estarem sempre correndo, e exaustos, e dopados – porque só dopado pra continuar correndo, mesmo exausto.

Mas, vá lá, ganhe dinheiro!! Não dependa de ninguém (Nunca! De jeito nenhum!!)!! Tenha mestrado, doutorado, pós-doc, cursos de extensão!! Tenha casa própria (um apartamento quarto e sala de um pum quadrado, que vai te custar meio milhão e que você vai alugar quando estiver fazendo suas viagens ao redor do mundo)! Tenha uma carreira brilhante, essa coisa pra te definir, pra fazer as pessoas sorrirem pra você quando te perguntarem o inevitável e essencial “o que você faz da vida?”

Acima de tudo (antes, durante depois, pra sempre) trabalhe. Doente? Trabalhe. Sofrendo? Trabalhe. Cansado? Trabalhe. Em pânico, frangalhos, tendo crises de choro? Toma aqui um remedinho e… Trabalhe. Porque a única forma aceitável de parar é a morte.

Eu me lembro quando a minha mãe morreu, depois de um ano punk quase todo passado entrando e saindo de internações. Antes disso eu já tinha pirado – não dei conta de segurar a barra da minha casa; mais da casa dela; mais do meu trabalho; mais das minhas tentativas de graduação; mais de casamento; mais dela, doente, sofrendo; mais de um monte de coisas. Tinha crises loucas de choro antes de entrar em sala (eu dava aula, na época), morrendo de culpa por não estar no hospital ajudando minha mãe mas, ao mesmo tempo, achando que eu *tinha que* estar ali, cumprindo com as minhas obrigações. Não conseguindo sustentar isso, eu entrei de licença médica. A diretora ficou puta da vida comigo (!!) – eu era uma das professoras com mais turmas – e mais possessa ainda ela ficou quando eu pedi demissão dois meses depois.

Na mesma época, uma colega professora da mesma filial também perdeu a mãe. Ela não parou de trabalhar. Ela “não deixou a instituição na mão”. Palmas e louros para ela.

O mundo chegou a um ponto em que não há margem nem para as dores das pessoas – pensei agora: não há margem para pessoas. Você tem que ser esse ciborgue reluzente e produtivo, “inafetado” e “inafetável” (*alerta das palavras inventadas*) pelas vicissitudes da vida.

E se você não é, bom…

Seja.

Ou peite.

Porque só o fato de não ser – e não querer ser assim, já te coloca automaticamente em uma posição de enfrentamento.

Outro dia eu estava ouvindo uma conversa numa roda de amigos. “A” estava contando para “B” sobre o “C”, um cara que, depois de entrar numa fase braba de síndrome do pânico e começar a tomar remédio e etc. resolveu parar de trabalhar. A última frase ressoou no ar como peso, e o desprezo no tom de A – e nos rostos condenantes das pessoas em volta que acenavam afirmativamente com as cabeças – era desprovido de qualquer tentativa de disfarce. “A” continuou: “Também, né, ele só fez isso porque a Fulana banca ele”.

Vish. Acabou o homem.

Morreu, ali, desmoralizado. Como assim ele parou de trabalhar?! E COMO ASSIM (!!!!!) ele era sustentado pela namorada?!?!”

Detalhe que, em momento nenhum, antes do casal “C” e Fulana irem embora, eu a ouvi expressar qualquer tipo de sentimento de indignação, como se estivesse se sentindo explorada, etc. Muito pelo contrário. Eles pareciam felizes.

Tudo bem que parecer feliz não significa nada, mas essa não é a questão. A questão aqui é que ninguém está com uma arma na cabeça da Fulana obrigando-a a sustentar uma pessoa a contragosto, assim como o fato de “C” ter parado de trabalhar também não faz dele, imediata e instantaneamente, um aproveitador preguiçoso. Porra, o cara tava doente! Surtado, pirando. Se a namorada resolveu segurar as pontas e dar uma força pra tornar a vida dele melhor, qual é o problema?! E se ela está bem com isso e ele também, qual é o problema?!?

Se existe algo na minha vida pelo qual eu serei eterna e fervorosamente grata é ao fato de o meu ex ter segurado as pontas aqui quando eu surtei e pedi demissão. E quando eu resolvi pegar firme nos meus estudos e me formar de uma vez. E quando eu resolvi ser MÃE presente e intensamente da minha filha e me dedicar inteiramente a ela. E quando eu quis seguir carreira acadêmica e ganhar a merreca que ganha um bolsista. Essa disponibilidade dele abriu espaço pra eu transformar a minha vida e eu sou muito, muito, muito mais feliz hoje por causa disso.

Mas, no mundo de hoje, aceitar ajuda é vergonha. “Depender” (e eu uso as aspas pra enfatizar um termo que foi saturado de carga negativa) é vergonha. Você que tenha três empregos, faça faculdade à distância assistindo as suas vídeo-aulas enquanto lava roupa, cozinha, lava louça, embala seu filho (que você nunca vê) pra dormir etc., que viva de energético, rivotril e mais o que for necessário pra te manter seguindo. Você que se esforce, se mate, vire um zumbi – isso sim! Mas “depender” de alguém, n-u-n-c-a. Manter-se com ajuda?! *Nunca*. O bonito é o penar, o sofrer, o esforço aniquilante do “vencer na vida” a qualquer custo. Isso é bonito. É essa a história que as pessoas querem ouvir. E que se dane se você for profundamente infeliz no processo. Não pode ser simples, nem tranquilo. Fácil?! CREDO, outra palavrinha nojenta. É uma audácia querer que as coisas fluam de maneira “fácil” – pior, é desmoralizante.

Pra quê, né?

Pra que tudo isso? Pra que impor às pessoas uma fórmula do como-viver-a-vida-corretamente, quando ninguém é igual? Quando ninguém é feliz exatamente da mesma maneira que outra pessoa?

Eu sei que é bem cliché, mas a vida é tão curta… Curta no sentido de que você nunca sabe quando ela pode acabar – o que significa que ela pode acabar súbita e definitivamente a qualquer instante. Será que vale a pena fazer do pouco tempo que a gente tem aqui algo exaustivo e estressante e difícil?

Pra quem achar que sim, beleza. Cada um tem o direito de viver a vida que escolhe e quer pra si. Uns ficam realizadíssimos vivendo na pressão e espocando que nem rolha de espumante. Outros não. Uns são felizes cuidando da família e da casa. Outros não. Uns preferem dar às suas famílias tudo de bom e quase nunca estarem com elas justamente pra poder fazer isso acontecer. Outros não. Uns conseguem se manter totalmente sozinhos. Outros precisam de ajuda.

E ninguém é mais nem menos que ninguém por causa disso.

 

A “delicadeza” dos meninos e o caráter “inofensivo” das “brincadeiras” (ênfase nas aspas)

Categoria: Mundo, Vida | 22 de junho de 2016

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Outro dia eu estava andando pela rua. Havia um grupo de adolescentes na calçada em frente a uma escola. Provavelmente, era algum momento de intervalo e eles saíram para lanchar. Alguns comiam e bebiam coisas.

Eram todos meninos e eles se empurravam, falavam alto e riam (um dos outros).

Nada anormal nessa cena. É até o que se espera como “costume” em bandos de meninos adolescentes. Eu nunca entendi essa dinâmica, confesso. Meninos sempre foram um universo desconhecido pra mim. Mas, enfim…

Estou passando bem do ladinho do bando quando um deles se destaca e corre – circulando os demais e a mim, inclusive. Imediatamente, um dos “amigos” dele ensaia persegui-lo e berra: “CORRE MESMO, VIADO FILHO DA PUTA!”

(!!)

E como o menino que corria era gordinho (e não podia faltar inferência ao peso, né? Nããããão. De jeito nenhum), o “amiguinho” logo acrescentou a altos brados: “SÓ NÃO FAZ TERREMOTO, SEU OBESO!”

(Singelo…)

A ofensividade crua e cruel – vulgo “brincadeira” – naquilo tudo me atingiu como um soco. Eu franzi a testa e olhei a horda, que explodiu em gargalhadas, com incredulidade. Imagina crescer achando que isso é amizade?

Olhei pro menino tachado de “viado filho da puta obeso”. Como de praxe, ele também ria.

Um riso emplastado. Um riso máscara.

Tive pena, tristeza mesmo.

Quanta dor um sorriso não esconde?

 

<fonte da imagem: We ♥ it!>