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Revisitando coisas já ditas

Categoria: Mundo, Vida, Vídeos | 26 de maio de 2017

Sei lá por qual motivo eu estou com os posts sobre abuso na cabeça. Fico pensando e pensando numa frase que eu escrevi – “é nos limites cinzentos que a gente se perde” – e me perguntando se eu fui clara o bastante.

Essa frase é um alerta para o perigo de certas sutilezas, que acabam mascarando, pra gente e pros outros, a horripilância de certas coisas e situações.

Na minha vida, nenhuma das situações de abuso foi ao estilo trash total-estranho-te-pega-num-beco-te-espanca-e-faz-coisas-terríveis-dignas-de-filme-de-terror. Nenhuma delas. Mas isso não quer dizer que elas não aconteceram, e nem que não causaram estrago.

Refletindo sobre isso, encontrei um vídeo da Jout Jout que eu acho que reforça bem essa ideia, e resolvi trazer pra cá pra complementar.

É um pouco pesado – porque abuso é pesado -, mas vale a pena. Pra pensar. Pra reconhecer.

Porque reconhecimento – poder identificar, poder discernir – é uma parte importante do poder fazer algo a respeito.

Beijos procês.

Ciclos de violência

Categoria: Mundo, Vida | 21 de fevereiro de 2017

Dia desses eu estava por aqui com minha filha. Estava no computador fazendo um trabalho e ela estava ao meu lado, distraída com alguma coisa simples, tipo fiapos na toalha de mesa. Como criança é um bicho meio doido, quando dei por mim ela estava com os pés no assento da cadeira, a bunda pro alto – tipo a posição do cachorro na yoga – e a cabeça para algum lugar que não dava para ver. Nem sei como aquilo era fisicamente possível mas, com o poder premonitório típico das mães, eu disse “Mulher, você vai cair”. Ela, claro, me ignorou e eu voltei a me distrair.

A cena deve ter se repetido umas três vezes: eu, me voltando para ela, encontrando a bunda no lugar da cabeça, alertando que ela podia cair, e ela me ignorando.

Não demorou muito, minha atenção foi desviada do artigo que eu não estava conseguindo escrever  pelo barulho da cadeira cedendo…

*barulho breve e seco de madeira arrastando no piso frio*

Um filme de desgraça se passou na minha cabeça, ao mesmo tempo em que eu via, em tempo real e mental, a kida cair, com tudo, de cara no chão.

Silêncio tenso de um milésimo de segundo e…

– UÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ –

O choro da catástrofe encheu a sala. Quem tem filho sabe como é: existe uma linguagem toda particular no ato de chorar de uma criança, um milhão e meio de pequenas modulações que te informam “tô com fome”, “tô com sono”, “quero te encher o saco”, “tô irritada”, “tô triste”, e essa era “emergência grau dez, vezes infinito”.

Caralho.

Uma fúria quase incontrolável tomou conta do meu corpo, de forma que eu me vi paralisada por uns segundos sem saber se eu matava aquela criatura ou socorria. A raiva que eu sentia era tanta que quando eu a juntei do chão, tudo o que eu pude fazer pra não quebrar minha promessa de nunca bater nela foi jogá-la nas almofadas do sofá. Ao fazer isso, eu a virei para mim e o choque de vê-la com a cara toda ensanguentada aplacou minha vontade de esganá-la. Mas, ainda assim, eu não me contive e disse gritando: “Bem-feito pra ti! Quem manda ficar se pendurando na cadeira?!”

A violência das palavras fez eu me arrepender antes mesmo de terminar de falar…

Por que? Por que eu estava fazendo aquilo com a minha própria filha? Será que o susto e a dor que ela estava sentindo já não eram punição suficiente? Por que eu queria fazer com que ela se sentisse mal – ainda pior – por aquilo?

Fui buscar gelo e, enquanto a segurava no colo e pedia desculpas por ter sido brusca, eu me sentia uma pessoa verdadeiramente horrível.

Mesmo assim, ela me desculpou instantaneamente…

Eu não.

É claro que eu vi o filminho da minha infância/adolescência passar todinho na minha cabeça e reconheci toda uma linhagem familiar extremamente agressiva vir à tona ali, em mim. Lembrei daquela história de quando o garoto me carregou pro banheiro dos homens (lembram? Tá aqui nesse post antigo) e minha mãe, cheia de raiva, olhou pra minha cara lívida e disse: “Quem manda…?!”

Eu tinha seis anos na época.

A idade da minha filha agora…

Nossa, como isso me deixou triste…

A gente repete. Repete o que viveu, repete a forma como fomos tratados um dia… E a grande merda nisso é, sem sentir, eu ensinar minha baixinha, que é essa pessoa doce e amorosa, a repetir isso também…

No fim desse dia, depois que ela foi dormir, eu peguei pra assistir uma palestra que uma amiga minha tinha me indicado há muito tempo, mas que, por qualquer motivo, eu ainda não tinha parado pra ver: um workshop sobre comunicação não-violenta.

Logo no início eu já comecei a chorar, e pensei, na hora, que eu tinha que trazer pra cá.

Esse vídeo foi um grande presente pra mim. Algo que me fez parar e repensar muita coisa, que me fez perceber como eu produzo e reproduzo violência, mesmo sem querer, mesmo sem me dar conta. E que me fez enxergar, de forma bem prática, como eu não entendo a grande maioria das minhas emoções, eternamente perdida nesse jogo de apontar dedo – “você isso!!” “você aquilo!!” – que não leva a nada bom. Na palestra, enquanto ele está lidando com o público, ele continuamente pergunta: “qual é o seu sentimento agora?” “Do que você precisa?” E, putz, como é difícil responder. E como é “bolante” perceber que é difícil responder. Afinal, não deveria, né?

Eu queria muito, muito mesmo, que todos vocês assistissem. É algo de fazer bem.

E quem quiser conversar sobre ele depois, pode comentar aqui ou lá pelo Facebook. Seria realmente incrível saber da experiência de vocês.

 

Verão…

Categoria: Mundo | 24 de novembro de 2016

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É, galera, verão chegando.

E com ele, os absurdos.

Por toda a parte pululam propagandas de cremes redutores, cremes firmadores, cremes anti celulite, cremes milagrosos, cremes plastificantes, institutos de depilação, academias de ginástica, clínicas de estética, etc. etc..

“Você precisa se preparar para o verão”, eles dizem.

E repetem, repetem, repetem incessantemente.

Muita gente não se dá conta, mas é impressionante. É tão na cara, é tão agressivo, que dá agonia. Ontem eu estava conversando com um amigo sobre isso. Entramos em um táxi que tinha uma daquelas telinhas sintonizadas na TV. Depois de mais um comercial padrão verão – modelo-de-padrões-irreais-diz:-tente-ser-como-eu-ou-morra-tentando -, eu comentei: “Já reparou como, agora, só o que aparece preenchendo os intervalos é esse tipo de propaganda?”

Já repararam?

“O verão está chegando”, eles começam. Ao que se segue o desfile de absurdos.

Nós somos metralhados com imagens de mulheres no estilo top-10-do-photoshop, em todo o esplendor de seus micro biquínis, dizendo – de novo, de novo e de novo – que só gente durinha, malhada, sem pelos, sem celulite (quem nesse mundo? quem?!?!) e sem gordura corporal pode aspirar ir à praia.

“Prepare-se para o verão!”

Compre esse creme.

Faça depilação.

Emagreça.

Tome esse shake milagroso.

Malhe.

Como se a praia fosse esse território exclusivo, por onde apenas os “eleitos do verão” pudessem transitar.

É esse tipo de mensagem implícita que leva à babaquices como aquele slogan vomitante clássico – “E nesse verão, você vai ser o quê? Sereia ou baleia?” -, ou a casos como o daquela moça que foi hostilizada só porque “ousou” ir à praia de biquíni (nesse post antigo aqui). Quantas e quantas pessoas não se sentem constrangidas com seus corpos por isso? Não deixam de frequentar esses lugares? Não deixam de usar esse ou aquele tipo de roupa, de aproveitar um dia de sol?

Argh. Chega dessa palhaçada de “projeto verão”. Vamos ocupar as praias do jeito que somos e estamos, deixar as celulus – velhas companheiras – bronzeadas, deixar o mar levar/lavar o que está pesando, pegar um sol. Porque esses não são direitos restritos às castas dos esteticamente “perfeitos”/”aceitos”, não.