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Pelo direito de ser feliz com o cabelo que se tem

Categoria: Amor Próprio | 20 de julho de 2014

Pelo direito de ser feliz com o cabelo que se tem - Sobre autoestima

Era uma vez uma menina que tinha o cabelo determinado pelos padrões como lindo: liso, levemente anelado nas pontas, macio, brilhoso, etc.

Aí veio a adolescência e *SWOOOSH* acabou com tudo isso.

O cabelo lindo virou “cabelo ruim”, “pixaim”: rebelde, cheio, uma coisa estranha entre o liso e o crespo.

A mãe da menina – sem saber que hormônios também transformam o cabelo da gente – disse que a transformação era culpa dela: que a menina havia estragado o próprio cabelo, porque não cuidava direito, etc – mais uma coisa pra lista interminável de falhas e inadequações. Inconsciente de que fazia mal, a mãe cantava músicas infames como aquela do Luiz Caldas: “nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”, etc etc entre piadas e comentários igualmente rotuladores e preconceituosos. Insistindo em alterar o que não tinha jeito e em perseguir um tipo de cabelo ideal que simplesmente não era mais o da menina, na tentativa de ajudar, a mãe fez pior.

*Entendam, estamos falando de uma época anterior à Grande Revolução da Escova Progressiva. Tentar alisar o cabelo de alguém era desastre certo*

Mas é claro que a mãe da menina tentou. E é claro que foi um desastre.

De “ruim”, o cabelo foi pra “pior ainda”, assim como foi a autoimagem da menina.

Depois de anos de sofrimento, musiquinhas, piadas e uma batalha diária e sangrenta com o próprio cabelo – a cereja do bolo de auto-rejeição – uma pessoa mágica entrou na vida da menina: um cabelereiro que a ensinou 2 lições preciosas:

>> NUNCA escove o seu cabelo – principalmente se ele estiver seco.

>> Após o banho: ATIVADOR DE CACHOS NELE!

E *TCHARAAAAAAN* fez-se a luz.

As duas lições constituem as Leis Básicas do Cabelo Enrolado. Mas a menina não as conhecia porque, seguindo as instruções da mãe, ela continuava a lidar com o cabelo como se ainda fosse liso. Mas ele não era mais liso. Seu cabelo havia cruzado definitivamente a fronteira do submundo, para o núcleo do Reino da Marginalidade Capilar. E como “o que não tem remédio, remediado está”, era inútil lutar contra isso.

Frase da minha vida: anos de sofrimento desnecessário.

Moral da história: “A culpa é sempre da mãe”? Não.

Como toda mãe, a minha queria o melhor pra mim. Querendo o meu bem ela me fez mal, sim, mas enfim… como toda mãe, a minha era humana. Na verdade, como toda mãe, ela tinha um projeto: tendo experimentado pobreza e violência física na infância, ela se prometeu que seus filhos nunca passariam por isso. E de fato, não passamos. E o que é autoestima comparado a isso? Na época dela, acho que nem se falava sobre isso. Nem se pensava sobre isso. Autoestima é uma questão geracional, acho, e a baixa autoestima tornou-se um mal social – na minha opinião de não especialista – principalmente, da minha geração pra cá – ou talvez eu perceba dessa forma porque estou no bolo, sei lá. De qualquer forma, como eu vivi isso, como eu sofri com isso, como mãe, o meu projeto é não deixar que meus filhos passem por isso (e quem mais eu conseguir ajudar :-D).

Moral da história: aceitação.

A partir do momento que eu aceitei meu cabelo pelo que ele era e não pelo que me diziam que ele tinha que ser – não só minha mãe, o mundo: vocês já viram aquele comercial ridículo de shampoo onde aparece uma modelo com o cabelo impecável dizendo: “Oh, céus. Meu cabelo está uma droga!”? Que tipo de mensagem isso não passa? Se o dela, “perfeitinho” e dentro dos padrões está uma droga, o que dizer do meu? – ele deixou de ser um problema. E eu aprendi que ele podia ser bonito a seu modo. Eu aprendi a achá-lo bonito a seu modo.

Se tem uma coisa que hoje eu posso dizer que está devidamente superada na minha vida é a questão cabelo *uhuuuu :-D*.

Eu amo o meu cabelo. Amo a loucura, o arrepiar, a rebeldia, a “jubice” do meu cabelo. Mesmo agora, pós Revolução da Escova Progressiva, mesmo com a possibilidade de um cabelo liso e quimicamente domado ao meu alcance, eu prefiro o meu cabelo. Insano, marginal, que nunca estará num comercial de shampoo, mas que é meu e que sou eu do jeito que eu vim ao mundo pra ser.

<fonte da imagem: We ❤ it!>

Pelo direito das(os) “gordinhas(os)” de serem felizes consigo mesmas(os)

Categoria: Amor Próprio | 3 de julho de 2014

Bom, pelo título, acho que já fica claro a que vim e que, sim, sou “gordinha” (ênfase nas aspas – pra indicar irreverência e, principalmente, a fala de outros).

Dificilmente um post desses viria de um magro, por motivos óbvios. Não que pessoas magras – aquelas que se vêem/sentem magras, claro, uma vez que o status “gordo” está longe de ter relação apenas com o quanto se pesa – não sejam assoladas por baixa autoestima – sei até que muitas são. Toda e qualquer pessoa pode passar por isso – mas nesse mundo escroto, obcecado com o corpo (e com o corpo magro), os “gordinhos” levam a pior.

Meu primeiro post aqui no blog tem a ver com peso porque eu passei 2/3 da minha vida lutando com o meu. Contra ele. 2/3 porque o primeiro terço diz respeito à minha infância que eu passei feliz e contente, sentindo-me linda e maravilhosa – o que me rendeu outro título pernicioso: “metida”.

Abro um parêntese para questionar esse “metida”. Por que, eu lhes pergunto, o fato de uma criança ser feliz com sua aparência faz dela uma “metida”? E não estamos falando só de crianças, estamos? Não é “metida” o rótulo comum para as mulheres que gostam de si mesmas?

Mas enfim, voltando: passado o primeiro terço – esse lindo e maravilhoso primeiro terço – veio a adolescência – vaca miserável – e aí, maninha(o), a coisa ficou feia. Ou melhor, eu fiquei. A menina linda, de cabelos brilhosos que enrolavam nas pontas de repente se viu “gorda” e com “cabelo pixaim” – porque sim, os funestos hormônios podem alterar drasticamente o cabelo (e a vida!) de uma pessoa. Mas da longa e igualmente torturante questão cabelo, tratarei em outro post, porque o de hoje, como já disse, é sobre “gordice”.

Desde essa virada infância/adolescência, a criança – antes linda, mas “metida” – se viu acima do peso e assim permaneceu pelos 2/3 de vida seguintes. E nesse mundo, volto a dizer, escroto, quando digo “acima do peso”, leia-se “gorda” e leia-se “feia”, ou “não desejável”, ou seja lá quais forem os adjetivos a emergir da carga pejorativa com a qual a palavra “gorda” foi recheada.

Resumidamente, isso significa dizer que eu passei 20 anos da minha vida me sentindo uma merda, ou seja, com a autoestima “mais baixa do que cú de cobra”; e que, portanto, eu tenho 20 anos de memórias de baixa autoestima acumuladas.

Somente agora, aos trinta, eu começo a ter insights interessantes sobre essas coisas, e a olhar para elas – e para mim mesma – de forma diferente. Por isso, talvez agora, a ideia desse blog tenha surgido com tanta força. Meu objetivo com ele não é o de catarse, nem de desabafo, mas de resistência. De militância, digamos assim, pelo direito que os que, como eu – aqueles eternamente fora dos padrões, e mais especificamente, os do meu grupo, os “gordinhos” – têm de serem felizes com o que são, do jeito que são, e não apenas com 20 mil quilos a menos. Porque peso – o estar/ser “gorda” – muito mais do que um número na balança, é um estado psicológico – tanto individual quanto coletivo.

Vou ilustrar isso pra vocês com a breve história da minha vida “fofa” – ai, “fofa” é terrível.

Tenho 1,55m de altura. Os miseráveis emissários do mundo escroto criam a maldita continha: os cm da sua altura menos 10 = seu peso ideal. No meu caso: 55 – 10 = 45. 45. HÁ! 45 miserável. Nunca na minha vida eu cheguei nem perto de pesar 45 quilos. Cansei de entrar em academias e ter que passar por aquelas avaliações físicas péssimas, com aquele bagulhinho nojento que espreme nossa gorduritcha lateral, e ouvir que eu estava muito acima do meu dourado peso ideal, o infame 45. Ele pairou sobre mim ameaçador e frustrante por quase duas décadas, como o símbolo da pessoa linda que eu nunca mais seria e nem conseguia ser, porque eu sempre gostei de comer e exercício, academia, etc., simplesmente não é a minha – ou seja, eu não apenas lutava contra a balança, eu lutava comigo mesma.

O mais perto que cheguei desse peso mitológico foi aos meus 17 anos, depois de passar duas semanas sem comer, sobrevivendo de suco de limão com adoçante – não façam isso: é loucura – porque a roupa da apresentação do meu grupo de dança deixava a barriga de fora (!!!!!).

Não sei como eu não tive um troço. De qualquer forma, eu perdi tanto peso, que conseguia ver meus ossos do peito e meus amigos torciam o nariz pra mim e diziam “nossa, como você está magra” e não como elogio. Mas eu não me sentia e nem me via “magra”. A memória que tenho desse dia, no teatro, aliás, é a de mim me escondendo dos outros até a hora de pisar no palco, chorando de me acabar e cobrindo minha barriga com as mãos porque eu estava “gorda” e todo mundo veria. Mas eu nunca estive tão “magra”. Nem antes e nem depois.

Minha vida é cheia de histórias desse tipo – e como a minha, a de muitas, muitas outras pessoas – de uma felicidade e amor próprio condicionados a um peso que nunca chega. Não porque eu nunca emagreço, mas simplesmente porque o problema não está no meu peso, mas na minha cabeça e na imagem que eu tenho de mim.

A merda da autoimagem é que ela é algo socialmente construído. A forma como nos vemos é formada através daquilo que vemos nos olhos dos outros – ou que pensamos ver – e, no meu caso, eu nunca vi apreciação. Eu ouvi todos os dias do segundo terço da minha vida que eu era “gorda” – sendo esse o termo mais leve – e que eu tinha que emagrecer. Então, eu acreditei. Como não acreditar? Acreditei de tal forma que me tornei aquilo que diziam que eu era: “gorda”. Mas um estado fixo, independente do meu peso. E como a vida testa a gente, e esfrega dolorosamente na nossa cara as nossas questões até que a gente se dê conta do que está acontecendo e as enxergue e resolva, inúmeras foram as pessoas que passaram pela minha vida e alimentaram minha guerra com meu corpo: a dona de um estúdio de balé uma vez me impediu de me matricular na aula de balé clássico porque – e cito – “você não tem corpo pra balé clássico” –

A minha cara? Foi mais ou menos essa aí:

Dramatic Chipmunk

– zilhões de familiares cansaram de me cumprimentar – depois de séculos sem me ver – com “nossa, como você engordou”; já me deram ovo de páscoa diet – e não, eu não sou diabética e nem estava de dieta; já me perguntaram se eu estava grávida – sabendo que eu não estava… A lista é imensa. E o mundo é assim: sempre tem um pra te botar pra baixo, principalmente se aquilo que te dói é algo com o qual você precisa aprender a lidar – e normalmente é.

A virada comigo começou depois que eu perdi 11 quilos em um mês porque tinha que ir a um casamento no qual a mitológica ex do meu namorado seria madrinha. Eu estava saindo de um período de luto – e quando sofro, eu como, não adianta. Nem a minha depressão é “magra” – e pensei: “Nem morta eu apareço na frente dessa mulher gorda” – mais um episódio da minha falta de amor próprio e autoconfiança – mas enfim, consegui. Só que como perdi peso muito depressa, comecei a recuperar tudo bem depressa também. Pra segurar, fui a uma nutricionista que começou a mudança da minha cabeça. Ela fez vários testes na primeira consulta, ao final da qual ela vira pra mim e diz: “para o seu biótipo, seu peso normal é 60 quilos”.

60 quilos.

Não 45, 60 (!!!). E detalhe: a média do meu peso nesses 2/3 de vida que eu passei me achando uma bola foi exatamente essa. Resumo da ópera: duas décadas de sofrimento inútil.

Outro acontecimento que me fez repensar minha autoimagem veio no início da minha gravidez, quando a pessoa que mais me torturou e infernizou com isso – eu não tenho nem como expressar o exato impacto da influência nefasta que essa pessoa teve em mim – chegou pra mim e disse: “nossa, nunca te vi tão magra”. Detalhe: eu estava com o mesmo peso de sempre.

E o que eu estou querendo dizer com tudo isso? Que o mundo é escroto? Que as pessoas são insanas? Que tem mais gente pra fazer você se sentir um cocô do que gente pra te fazer bem?

Não – muito embora tudo isso seja verdade.

O que eu quero dizer é: quem decide é você.

Algo que aprendi recentemente: o que você sente é responsabilidade sua. Ou como Augustus Waters bem disse, na vida, a gente não decide se será ou não machucado, mas quem machuca a gente, sim. Somos nós que concedemos aos outros esse poder. Um exemplo? Quando eu ganhei o ovo diet, o ódio se apoderou de mim. Eu quis estrangular o ser, quis enfiar o ovo inteiro goela do ser abaixo ou mandar o ser enfiar aquele ovo maldito em outros orifícios, e depois fiquei me sentindo a bola péssima de sempre. Na páscoa desse ano, o mesmo ser resolveu me chamar de “gorda” de novo, mas com uma indireta menos sutil. Essa pessoa colocou a mão na minha barriga e disse pra minha filha: “Tá vendo? Tem uma irmãzinha aqui dentro”. E logo em seguida: “Tem que fazer é que nem a Ivete Sangalo, né? Assumir logo: não é bebê nada, é pança mesmo” – pasmem. Isso aconteceu assim. Agora, milagre dos milagres: o que eu senti? Nada. Eu ri. Ri de verdade. Porque o que mais se há de fazer com um ser desses? E a minha reação mostra um pequeno progresso no meu caminho em busca do meu amor por mim mesma. Um amor que deveria ser incondicional.

Eu poderia ter ficado arrasada. Teria sido a reação padrão. Mas não. Não dessa vez. O que eu sinto é responsabilidade minha. O que os outros fazem ou dizem? Eu não tenho controle sobre, eu não decido. Mas eu decido se o que eles fazem ou dizem me machuca.

Não é fácil. Não é simples. Não é instantâneo. Para mim, 30 anos se passaram antes que algo começasse a mudar. Mas hoje eu sei: não importa o meu peso, eu tenho que gostar de mim de qualquer jeito. Às vezes a gente engorda, às vezes a gente emagrece. E aí? Vou viver em crise? E daí também? Qual é o problema? Esse é o único corpo que terei nessa vida. Estamos presos um ao outro, eu e ele, para o bem ou para o mal. Então que seja para o bem, não?

Sim, a gente vive em um mundo que exige um peso – x como padrão condicional de beleza. Em um mundo onde a sociedade cobra, traumatiza e perturba, principalmente as mulheres, impondo características impossíveis e surreais. Mas é você que decide absorver tudo isso sem filtro e viver em guerra com seu corpo, ou ligar o bom e maravilhoso

Pelo direito das gordinhas serem felizes - Sobre Autoestima - Sobre Autoestima

 e ser feliz :-).

Nesses anos, inúmeras possibilidades de resposta aos indelicados de plantão me passaram pela cabeça como:

“Nossa, como você está gorda.”

“Foda-se. Não te perguntei.”

“Nossa, como você está gorda.”

“E você, sempre tão agradável…”

“Nossa, como você está gorda.”

“Foda-se. Não é você que me come.”

Mas a que eu considero a melhor mesmo, a resposta ultimato da transcendência é:

“Nossa, como você está gorda.”

“É mesmo? Obrigada ♥.”

E “beijo no ombro”.

<fonte da imagem: Facebook>