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Colo

Categoria: Amor Próprio, Vida | 15 de julho de 2016

mafalda_teste

 

Por um período breve, uns meses aí, as circunstâncias da minha vida acabaram fazendo de mim uma pessoa que se exercitava: focada, determinada, aquela que ia correr fizesse chuva ou sol, com dor ou sem, estando a fim ou não. Por um tempo eu precisei disso pra não pirar. A gente já conversou sobre isso aqui.

Só que a vida vai mudando, as rotinas se transformando, e aí vieram os mini-lancos – filhotes da minha bulldog. Como Pelanca era uma mãe relapsa, eu cuidei dos bebês (e muito justo, porque fui eu que inventei essa história de ninhada) e todo o meu tempo e energia ficaram para eles.

Conclusão lógica: morreu corrida.

Eu até tentei ir algumas vezes, mas o cansaço interferiu e eu parei de insistir. Resolvi respeitar minha vontade – quando eu quisesse eu voltaria a correr. Não havia questão pra mim.

Até meu namorado resolver me cobrar.

Eu cheguei a mencionar pra vocês dos primeiros estresses com essa coisa de estética – pequenas coisas lançadas a esmo, que me deixaram insegura e tal. Mas não muito tempo depois daquela história da coxa e do café da manhã (aqui), eu e namorado estávamos no metrô, indo pra compromissos, quando ele vira e me pergunta:

“Quando foi a última vez que você correu?”

Meus espinhos e escudos levantaram todos, imediatamente.

Eu me lembrei do “Vai correr!”, lembrei do dia da coxa, e das vezes em que ele me olhou feio, ou criticou porque eu comi besteira, ou muito, ou bebi demais…

(Pois é, nessas horas a porra toda sobe e explode na nossa cara)

Estiquei minha coluna.

Até onde eu sabia, ele não tinha virado meu personal trainer.

“Não lembro. Por quê?”

“Acho que uma rotina de exercício é importante pra se manter saudável.”

“Eu *sou* saudável.”

“Eu sei… Mas eu acho que faz bem pra gente.”

“Pra gente?! Por que o fato de eu correr faria bem pra gente?! O que você tem a ver com isso?”

Cara, eu virei bicho.

Eu virei o capeta encarnado.

Tudo bem que eu também fiquei péssima, me sentindo péssima, mas não decepcionei: depois de uma discussão longa, eu disse que, se ele estava tendo problemas em aceitar o meu corpo normal, não-atlético, era pra ele ficar à vontade e procurar outra pessoa, porque eu não ia virar nenhuma Miss Fitness por causa dele.

Eu achei que a coisa toda fosse terminar ali. E, puxa, como me doeu. Mas eu estava extremamente segura da minha posição e, vá lá, que eu ficasse sozinha, mas lidar com uma versão atualizada da minha mãe me enchendo não dava.

Bom, no fim, não acabou. O tempo passou e muitas conversas relacionadas à estética, aparência, valores escrotos, sociedade machista, objetificação da mulher etc. vieram depois disso.

Mas uma coisa que emergiu com toda a força foi a minha resistência.

Esse post tá ficando giga, mas deixa eu contar uma outra história pra vocês entenderem.

.•°*°•..•°*°•..•°*°•.

Era uma vez Kelly adolescente. Ela tinha problemas com o pai, um cara mega arbitrário e autoritário do tipo que a palavra era lei e que, quando ficava puto, era de dar medo até em homem barbado. Certo dia ele a mandou varrer a casa para “ajudar a mãe dela” – detalhe que ele não achava que tal tarefa cabia nem a ele, nem ao irmão dela, ambos lindamente desocupados naquele momento. Muito revoltada, mas, ok, vamo lá, ela varreu o apartamento todo. Deixando bem claro que ela estava achando aquilo tudo um absurdo, mas varreu.

Já chegando na porta da cozinha, pegando a pá para finalizar a coisa toda, o pai dela chega e diz:

“Varre de novo.”

“O quê?”

“Varre de novo.”

“Varre de novo o quê? Eu acabei de varrer a casa.”

“Você não varreu direito. Varre de novo.”

Ela tinha varrido direito. A questão não era essa. A questão era que ela tinha varrido protestando.

“Eu não vou varrer de novo. Eu acabei de varrer a casa!”

“Ah, vai. Você vai varrer a casa toda de novo agora!”

“Não vou.”

A voz dele foi subindo, subindo, subindo… As veias do pescoço e da testa saltaram, os punhos se fecharam. Ele encurtou a distância entre os dois, intimidador, ameaçador.

“Varre de novo.”

“Eu não vou varrer.”

A essa altura todo mundo veio pra sala pra ver o que estava rolando. Ele tomou a vassoura da mão dela e ficou segurando, mantendo acesa a possibilidade de ela apanhar com ela. Tudo velado, mas inegavelmente ali. Nesses momentos ele metia medo mesmo, era assustador. Até a mãe olhava alarmada.

“EU ESTOU MANDANDO! VOCÊ VAI VARRER A PORRA DESSA CASA TODA AGORA!”

Ela se sentou no chão.

“Não. Vou.”

De novo, e de novo, e de novo, ele berrava e berrava, e ela respondia: “Eu não vou varrer.”

E ela não varreu.

.•°*°•..•°*°•..•°*°•.

E o que eu quis dizer com essa história?

Eu sou o tipo de pessoa que, quando pressionada ou cobrada de forma arbitrária ou injusta para fazer alguma coisa, simplesmente *não faz*.

Então eu parei de correr. Parei.

E quando eu comecei a engordar – inevitável, porque eu *amo* comer e beber – e senti necessidade de voltar a correr pra dar uma segurada no corpo, eu fiz sem ele saber – pra não virar cobrança de novo e eu me estressar.

Só que nunca mais fluiu tranquilo. Nunca mais.

Depois desse dia do metrô, todas as vezes que eu corri foram uma **luta** comigo mesma. É como se algo dentro de mim dissesse “NÃO VOU CORRER!!” sabem? E é uma merda, porque eu dei um poder fodido ao outro sobre mim, ainda que seja às avessas. E isso não me fez bem, porque eu engordei e comecei a ficar incomodada comigo mesma. Como as coisas não vão embora tão facilmente e ninguém resolve suas questões tão rápido (nem eu, nem ele, nesse caso), veio insegurança, um pouco de raiva, enfim… Eu comecei a me achar feia, a me sentir desconfortável nas minhas roupas e a já não comer minhas batatas fritas tão despreocupadamente…

E é um saco isso.

Aí eu achei que estava na hora de fazer alguma coisa pra dar uma contornada nessa resistência.

E parti pra enfrentar um outro tabu (mostro do armário) megamastodôntico da minha vida: ir pra academia de ginástica – um dos lugares onde eu tive algumas das experiências mais humilhantes da face da Terra, nessa minha trajetória de vida – e passar pelo **horror** que é uma avaliação funcional.

Que eu fui fazer hoje, já pensando no post de superação que eu escreveria depois.

Pfff.

(Repitam comigo: Pfffffffffffffffffffffffffffffffff)

É *claro* que não foi tranquilo.

Não foi tão péssimo quanto eu esperava: eu não fiquei com vontade de chorar e querendo que um buraco no chão se abrisse e me engolisse quando tive que ficar só de top e short na frente do professor (um avanço!). Mas quando o cara me disse que 37%  (!!!) do meu corpo é gordura e que, na faixa da tabelinha, eu estava na pior categoria – “muito ruim” – eu fiquei me sentindo *péssima*. *Apavorada*. Pra não falar nas fotos que ele tirou de mim de todos os ângulos, e colocou na minha ficha “para comparação futura”. Ele ali conversando comigo, e as fotos na tela do computador me aterrorizando…

Argh, que inferno.

Depois disso, fiz musculação, fiz aeróbico e fiquei fazendo planos de passar a porra do dia inteiro na academia… Como se eu estivesse me agarrando loucamente a uma pranchinha de madeira pra não me afogar.

Merda.

Depois de trinta minutos de luta na esteira, baixou o desânimo. Fiquei pensando no blog (nessas horas, eu sempre penso), dizendo pra mim mesma que aqueles números (peso, percentual de gordura, humanidade…) não queriam dizer nada, que eu não devia deixar aquilo me afetar tanto – sem sucesso. De repente recebo uma mensagem de uma mulher (fiquei na dúvida de como me referir a ela 😀 Moça? [Estranho…] Conhecida? [Muito distanciado…] Amiga? [Achei que era muita presunção… :-D] Daí ficou ‘mulher’, pra dar uma empoderada – com quem tenho mantido certo contato. Nós só nos encontramos uma vez, mas rolou uma afinidade instantânea e absoluta. E depois de alguns meses desse primeiro e único encontro, por coincidências diversas, começamos a nos falar mais por mensagem, email, etc.

Aí, sei lá porque cargas d’água, eu resolvi perguntar pra ela:

“Um desabafo de academia pode?”

“Claro!”

Abri meu coração timidamente. Falei só do percentual de gordura e coloquei uma carinha chorosa, já esperando por alguma reação do tipo “ai, que besteira!”. Mas, milagre dos milagres, fantástica e instantaneamente ela entendeu.

(!!)

Ela também odeia avaliação funcional.

(!!!!!)

(ÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!)

E ela foi *fofa*.

Gentil.

(!!!!!!!!)

Gente, ela foi um amor, um cobertor quentinho.

E essa experiência foi inacreditável e preciosa.

Ela me falou várias coisas de esquentar coração e terminou dizendo:

“Você tem um corpo bom e que funciona. É isso que importa. Cante comigo:”

E colocou o link pra essa música aqui:

(Não é linda?)

E eu chorei.

Chorei as dores de uma vida quase inteira.

Chorei pela pessoa que eu fui, as coisas que eu ouvi e as coisas que incutiram na minha cabeça e tão fundo, tão fundo em mim, que é tão difícil me livrar…

Chorei pela forma tão cruel e implacável de olhar pra mim mesma e pro meu corpo que me ensinaram a ter…

Chorei por estar com receio de ficar pelada na frente dos outros e por querer me cobrir e me esconder…

E sofri por isso.

E sofri por lutar com isso e não conseguir superar, não conseguir me livrar de todo.

Chorei e chorei.

Mas enquanto eu chorava, eu pensava também no quanto era boa a sensação de ter recebido colo e de ter encontrado alguém tão inesperado, pra me dar a mão e dizer coisas reconfortantes *♡*.

 

 

 

 

Pelo direito de ser imperfeito

Categoria: Amor Próprio | 29 de julho de 2014

Pelo direito de ser imperfeito - Sobre Autoestima

Uma vez eu li em algum lugar, em uma matéria sobre os finlandeses e as saunas – que são parte importante da cultura deles – uma moça dizendo que achava que as saunas tinham um papel fundamental na construção da auto imagem das meninas/garotas/mulheres porque permitiam que elas tomassem conhecimento da aparência dos corpos de pessoas normais/reais (já que eles frequentam as saunas pelados), funcionando para elas como parâmetro – um parâmetro muito mais coerente e saudável – ao invés de revistas, filmes, etc.

Eu achei interessante, mas isso só fez sentido pra mim realmente quando assisti um vídeo do making off de um ensaio fotográfico do tipo que hoje em dia eles chamam “nu real”. Eu fiquei olhando as mulheres e pensando: “putz, as barrigas delas dobram também”, ou “ah… não é só meu peito que é estrábico”, ou “ah… ela também tem a bunda cheia de celulite”, e coisas ridículas – mas não tão ridículas assim – do gênero. Acontece que eu vi poucas mulheres peladas na vida, e as que eu vi eram tudo o que eu queria ser, mas se achavam horríveis. E se suas barrigas lisas e seios perfeitos eram horríveis, o que dizer dos meus???(!!!) Nesse ensaio, essas mulheres normais, reais, com defeitos como os meus eram retratadas como “bonitas”, em retratos de uma “beleza real”. As falhas físicas – ou a realidade – daquelas pessoas não estavam expostas como algo a ser mudado, como motivo de vergonha, como propaganda para procedimentos estéticos, mas como um jeito natural de ser bonito. E nossa, como eu fiquei impressionada com a diferença que isso fez.

Lembrei de um professor que uma vez comentou que as mulheres de um grupo social específico – que agora não me lembro – achavam estrias na barriga a coisa mais linda do mundo. Como normalmente elas as adquiriam depois de uma gravidez, ter estrias na barriga estava profundamente associado ao milagre de gerar uma vida. Para elas, portanto, ter estrias na barriga era motivo de orgulho, um símbolo da magia da maternidade. Fico pensando na palhaçada – escrotidão – da sociedade ocidental moderna que anuncia as estrias como prova de que a maternidade estraga o corpo das mães… – afffff dez mil vezes – E por quê? Vocês já pararam pra pensar quantas indústrias iriam à falência se as pessoas estivessem bem consigo mesmas e com seus corpos?

Pois é.  

<fonte da imagem: We ❤ it!>

Pelo direito de escorregar de vez em quando

Categoria: Amor Próprio | 28 de julho de 2014

Casamentos são um problema pra mim. São daqueles eventos que põem à prova todas as suas pseudo filosofias; a hora em que aquele pedacinho perturbado da sua mente vem à tona pra te sacanear e dizer: “Amor próprio, né? Fazer bloguinho é mole. Agora é que eu quero ver. Vai lá, põe o seu vestido, põe“.

Foda.

Pra mim é sempre um momento de teletransporte direto pra adolescência, aquele instante do tipo:

Pelo direito de escorregar de vez em quando - Sobre Autoestima

(a menina perfeitamente não-gorda na imagem me irrita um pouco, porque é justamente esse tipo de mensagenzinha subliminar escrota que contribui pra agravar a autoimagem das meninas, mas enfim, depois de chamar atenção para o fato, posso apreciar as risadas que dei com a foto e a total identificação :-D)

Minha primeira reação ao convite foi: não vou. E eu até que tinha desculpas plausíveis pra não ir – ando passando por um período bastante intenso no mestrado, tinha dois artigos pra terminar etc etc – mas no fim, apesar de verdadeiras, eram exatamente isso: desculpas. A existência do blog ficou que nem alarme disparando minha hipocrisia na minha cabeça. Até comentei com a minha amigona e conselheira de assuntos bloguísticos Camile Carvalho, do Vida Minimalista, o quanto eu estava me sentindo uma vendida desonesta: aqui, discursando pela autoestima, pela auto aceitação, mas em casa me sentindo uma gorda e cogitando seriamente não ir a um casamento por causa disso.

8 horas antes do casamento: tiro todas as possíveis roupas do armário e experimento. Duas ainda servem. Fico relativamente satisfeita com um tubinho preto (sem mangas, pasmem mil vezes – braços gordos: um grande complexo). Fico feliz pensando em escrever um post sobre roupas milagrosas.

2 horas antes do casamento (e um almoço e um lanche depois): visto o tubinho preto e detesto. Eu o experimento com todos os tipos de cinta possíveis e imagináveis do meu arsenal, mas enfim, sabe como é a lei física da gordura corporal: o que se aperta em um lugar, vai para outro; então cinta não resolve. Meus braços parecem mais gordos do que nunca e eu repito que não vou um milhão de vezes. Experimento de novo todas as outras roupas, ficando especialmente puta por causa daquelas que não fecham mais e me sento na cama, derrotada, em minha frustração rolante, de frente pro espelho. Todos os pneus ali, em glorioso deboche. E o blog no fundo da minha consciência. “Hipócrita!” O pedacinho perturbadamente sincero da minha mente diz.

1 hora antes do casamento: tenho que sair em meia hora. Discuto comigo mesma. Uma parte diz que não vai. A outra me lembra das inúmeras situações adolescentes iguais, me lembra do blog e me questiona se todo o progresso que eu achava que tinha feito foi, na verdade, auto engano. Eu encaro meu reflexo. “Engordou? Assume, porra. E daí?” Eu digo pra mim mesma. Visto o tubinho preto de novo.

E vou pro casamento com ele.

“Foda-se”, eu penso, quando vejo o reflexo do meu braço de relance.

“Foda-se”, eu penso, todas as vezes que, ao longo da primeira hora, me sinto auto consciente e incomodada comigo mesma.

Depois consigo esquecer de mim e me divertir. Algo que talvez tenha a ver com o pro-seco :-D. Mas quer saber, foda-se :-D. Eu fui. De roupa justa e braço de fora e tudo :-D.

Êêêêêê :-D.

<fonte da imagem: We ❤ it!>