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Dar a cara para bater – parte 2

Categoria: Amor Próprio | 11 de novembro de 2016

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O título que eu queria pro post era:

*Dar a cara pra bater que a vejam*

Mas o sistema não permite riscado em título. 

Bem, que seja.

Essa história do livro já é antiga. Na época do processo biográfico, o Arcanjo dizia: “Você precisa falar para as pessoas do seu livro. Deixe-as saber que você o escreveu. Como você espera que o comprem ou que o descubram se você mesma não o divulga? Deixe as pessoas verem você.”

Hm. Problemático.

Minha resposta era sempre a mesma: “Eu não preciso que ninguém me veja. Não quero ‘ficar famosa’ (no sentido de todo mundo saber quem eu sou, e saber que fui eu – euzinha – que escrevi o que eu escrevi). Só gostaria de poder me sustentar da escrita. Só isso”.

Não sei se isso é bom ou mau, mas é certo que expressa uma dificuldade minha: a de “vender meu peixe”.

Vocês percebem a relação com autoestima aí?

Pra “vender o próprio peixe” a gente tem que ter certo grau de confiança nele.

E aí é que pega. Porque aqui dentrozinho de mim tem essa parte maldita que não acredita que eu sou “boa o bastante”.

E que espera sempre críticas, como única reação dos outros àquilo que eu faço.

Presentinho de papai e mamãe – valeu, gente!

Mas é.

Digo isso não é pra entrar na espiral de comiseração, não, galera. É pra consolidar o processo de consciência, que é também um processo de distanciamento. Distanciar significa entender o que é meu/o que sou eu e o que é deles/o que são eles. Pra poder resolver.

E talvez, observando o meu caminho de tomada de consciência, vocês também possam se dar conta de coisas do caminho de vocês.

Quando você **cresce** ouvindo, todos os dias, várias vezes ao dia, das pessoas que deveriam te proteger e ficar do seu lado, que você é “gorda” (um termo usado como ofensa e com as piores conotações possíveis), “rolha de poço” (era um dos favoritos dos meus familiares), “baleia”(etc. etc.) – e por isso: feia -, que seu cabelo é “ruim”, “duro”, “pixaim” (entre outros) – e por isso, feio -, conseguir gostar do próprio corpo ou do próprio cabelo se torna uma saga de esforços hercúleos. E não há espelho, nem foto, nem balança, nem pessoa que diga que a verdade é diferente disso: você não acredita. Não consegue.

Eu nunca vou me esquecer de um dia em que eu estava em casa, sentada na mesa da sala, só de calcinha, fazendo dever. Eu devia ter uns 14, 15 anos. Minha mãe passou por mim, no caminho da cozinha para o quarto. Eu percebi o olhar dela no meu corpo, crítico e implacável – pô, vamos lá, era cruel – mas fingi que não vi. Ela passou uma vez. Passou de volta. Passou uma terceira. Na quarta, ela parou na minha frente e disse: “Puta que pariu, Kelly. Que coisa horrorosa. Eu, com quase o triplo da sua idade, não tenho o peito caído desse jeito”.

Ô delícia.

Pra quê?

Pra quê?!?!

E o que se faz com isso, gente? Plástica?!

Meu pai não era diferente. Acrescentou ao discurso familiar generalizado, crítico da aparência e do corpo, a máxima: “nessa vida, se você não é o melhor, você não é nada”.

E aí, acabou-se.

Eu, toda satisfeita:

“Olha, pai, tirei 9,0!”

“E Por que não tirou 10,0?”

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“Olha, pai, tirei 10,0!”

“Não fez mais do que a sua obrigação.”

E daí pra baixo.

Só que, vamo lá: no que a gente é o melhor superfodástico na vida, povo? No que **não há ninguém** melhor do que a gente nesse planeta?! E que tipo de valor estúpido é esse que só serve pra fazer a gente se sentir mal e uma grande bosta insuficiente pela vida afora?

E pra tirar essa merda de dentro de mim?

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Será que o meu livro é bom o bastante?

Poderia ser melhor – sempre pode ser.

Logo, não é nada.

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Será que eu sou boa o bastante?

Poderia ser melhor (pros outros: estar cheia da grana. Ter casa própria. Ser CEO de uma multinacional. Ter 20 mil artigos publicados. Estar com a tese pronta antes mesmo da qualificação. Ter sabido aos 22 que meu relacionamento não iria dar certo e não ter feito “a burrada” de sair de casa. Ter me graduado aos 21 em medicina pra hoje estar cobrando R$500 a consulta. Falar 10 línguas diferentes. Ter dado a volta ao mundo mochilando. Não ter tido filho não planejado. Ter 10% de gordura corporal e lindos e comportados cabelos lisos. Etc. etc. etc.). Logo, não sou nada.

Foda.

Esses dias eu estava me lembrando de um menino… do passado.

O nome dele me foge como fumaça entre os dedos, mas o rosto dele está tão vívido na minha memória que é como se ele estivesse aqui, na minha frente, ao invés de em lembranças. Me lembro dele, sorridente e aberto como a gente só consegue ser quando novinho, no mar de Rio das Ostras comigo, só com a cabeça de fora, me olhando.

Me olhando com aquele princípio de gostar inocente e fofinho dos inícios de vida.

Na época, eu não sabia que era aquilo. Lembro de ver o sorriso e pensar: “Será?”, enquanto meu rosto em fogo, ficava vermelho. Mas como era tudo também muito dentro do espectro da amizade, nunca tinha como ter certeza. Na dúvida, a certeza lógica pra mim era sempre a de que eu estava confundindo as coisas. Afinal, como é que alguém ia gostar da “gorda de cabelo ruim”?

Eu tinha 13 anos e havia viajado pra Rio das Ostras com uma amiga da escola. Ela tinha uma irmã mais velha, que tinha um namorado, que tinha um irmão (o menino no mar). E todos fomos passar um feriadão na casa de veraneio dos pais dela.

Abro um parêntese para explicar que essa foi a pior fase do meu relacionamento com o meu cabelo, essencialmente porque minha mãe, incapaz de aceitar que meu cabelo não era mais liso (ele havia sido, durante a minha infância), havia me levado para fazer um relaxamento (tempos pré-progressiva, gente) que não só deixou meu cabelo um cú, como toooodo queimado. Pra uma pré-adolescente já cheia de questões: pesadelo.

Nós, os três de treze, estávamos sempre juntos. Mas nesse dia da praia, não lembro o motivo, estávamos só o menino e eu. Fiquei o tempo todo escondida na água, morrendo de vergonha do meu corpo de biquíni, e ele ficou lá comigo. Devemos ter conversado, mas não lembro. Lembro dele me olhar e de eu sentir como se eu fosse alguém de quem ele gostava de estar perto. Afeição genuína, é a expressão que me vem.

Houve vários momentos assim, ao longo do feriado. Até que, numa das noites em que os pais da minha amiga nos deixaram no centrinho da cidade, à noite, pra que nos divertíssemos, ele tentou se aproximar mais. Nós estávamos parados na rua, esperando a minha amiga amarrar os sapatos ou coisa assim, quando ele chegou mais pra perto de mim. Ele ergueu a mão e fez menção de fazer carinho no meu cabelo, quando eu, bruscamente, tirei minha cabeça do alcance dele e gritei: NÃO MEXE NO MEU CABELO!!!!

Na hora, eu não entendi porque ele ficou tão chateado, mas agora eu entendo.

Tadinho.

Foi o fim dos olhares e aberturas fofas.

Tudo porque eu não queria que ninguém percebesse – tato implica um nível bastante intenso de percepção – o quão “ruim” e “duro” o meu cabelo era.

Triste.

E por causa de valores e coisas loucas que me fizeram acreditar sobre mim, eu deixei de viver coisas boas e ter a experiência, mais cedo, de alguém gostar de mim do jeito que eu era.

Por achar que isso não era possível, eu inviabilizei essa possibilidade por muitos e muitos anos. E assim, confirmei e reafirmei, e me cerquei de pessoas que confirmavam e reafirmavam, de novo e de novo, que eu não era boa o bastante.

“Boa o bastante para quem, Kelly?”

Talvez, pra mim…

 

 

 

Dar a cara para bater – parte 1

Categoria: Amor Próprio, Vida | 7 de novembro de 2016

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O conflito dessa semana teve a ver com grana. Regra geral nesse país de hoje: quem já não tinha muito dinheiro, agora tem menos ainda.

E eu, nesse bolo.

Aí eu entrei em uma espiral louca de estresse mental, onde fiquei tentando desesperadamente achar o que fazer para conseguir sair do sufoco e, uma das coisas que me veio à mente foi divulgar meu livro para os meus amigos. Algo do tipo: “Então gente, novembro, meu aniversário chegando. Que tal ajudarem a amiga escritora aqui, comprando meu livro?”

Quando a ideia me passou pela cabeça a primeira vez, ela me pareceu razoável, afinal, é um sonho/objetivo meu conseguir fazer da escrita uma forma de sustento. E tá lá o livro, pronto. Feito. À venda. Só que esse “é, pode ser” durou pouco (muito pouco), porque a ideia foi logo seguida por uma onda de ansiedade.

Vejam, eu já falei até aqui sobre o meu livro, mas nunca no meu Facebook pessoal, por exemplo. Pouquíssimos são os amigos que sabem que eu tenho um livro à solta por aí. E mesmo alguns desses, quando me disseram: “comprei seu livro!”, geraram em mim um pavor muito curioso.

No auge desse conflito, eu recorri a uma amiga (que leu o livro) pedindo opinião. Eu falei sobre o que eu estava pensando em fazer e perguntei o seguinte:

“Você acha que o livro é bom o bastante?”

E ela:

“Bom o bastante para quem?”

E mais pra adiante na conversa ela disse – assim, a frase ali solta, única, hegemônica no parágrafo:

“Tem alguma coisa errada com essa pergunta.

Pausa.

Eu respirei… Senti, mais do que pensei…

É . Tem alguma coisa errada com essa pergunta.

“Você acha que o livro é bom o bastante?”

Bem, se eu estou perguntando, é porque eu não sei. É porque eu, embora goste muito da história que escrevi, duvido dela.

Que merda, né?

O lance é que não tem nada a ver com a história, com o produto final que é o livro em si.

É porque **eu** fiz, que eu duvido.

O livro é uma parte de mim. Apesar de ser uma obra ficcional e não contar *a minha história*, por ser algo que eu criei, do nada, com esforço, trabalho, com muito investimento pessoal,  o livro sou eu.

E eu duvido de mim.

Eu nunca acho que o que eu faço é bom o bastante. Eu sempre penso que poderia ser melhor. Então, quando eu pergunto: “Você acha que o livro é bom o bastante?”, no fundo, o que eu estou perguntando é:

“Você acha que eu sou boa o bastante?”

E, é. Tem alguma coisa muito errada com essa pergunta.

Exercício de autogentileza: fotografia

Categoria: Amor Próprio | 1 de novembro de 2016

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Exercício da semana:
Ser gentil com a pessoa (eu) que aparece nas minhas fotos.

Difícil isso.

Essa semana eu vi umas fotos que o Namorado tirou de mim, na praia. Eu já as havia visto – e feito caretas. E soltado sons de frustração. E virado a cara. E dito: “Argh, não quero ver isso”.

Lugar comum na minha relação com as minhas fotos.

Mas aí, por acaso, nesses processos malucos de smart phones de hoje em dia, essas fotos ressurgiram, mostradas tipo sugestão de lembrança do Facebook.

Meu primeiro impulso foi o de repetir a minha primeira reação, mas aí eu me freei. Disse a mim mesma para parar por um instante. Eu me propus respirar e olhar *de verdade* para a pessoa na foto. Olhar com os mesmos olhos com os quais eu observo todas as outras pessoas do mundo – um olhar certamente mais gentil do que aquele que eu reservo para mim. Eu me propus olhar para mim na foto sem as expectativas absurdas que normalmente acompanham essa dinâmica: um esperar ver alguém dentro de padrões que não são meus, não são *eu* e nem nunca vão ser.
“Ai… eu tô gorda nessa foto”, a gente diz, como se isso fosse algo péssimo e como se o fato nos decepcionasse.

Bem, se a gente não é magro, por que a gente espera ver alguma coisa diferente?

Tem tantas mulheres gordas que eu acho **lindas**. Por que eu não posso olhar pra mim da mesma maneira?

O professor da academia, na avaliação funcional, disse que o peso ideal pra mim é 46kg. Eu ri e pensei:  “Tsc, tsc, tsc. Tolinho“. Porque eu sei que isso simplesmente não é viável. Não é real. Não é ideal. *Para mim*.Não é, nunca foi e nem nunca vai ser a minha realidade, não importa quantas vezes os cálculos e tabelas das academias do mundo atestem o contrário.

Eu fiquei olhando para mim na foto.

O que eu estava esperando ver ali? Por que eu estava frustrada?

Não, a mulher na foto não era pequena, fina, nem de estrutura delicada.

Não, não era uma modelo, nem alguém com um tipo de beleza extraordinário.

Era eu, a mesma de sempre, ali, se ralando na areia, nas posições mais toscas, pra cavar um buraco-cratera pra filha.

E por que eu deveria me sentir menos por isso?

“É você, aí, na foto”, eu me disse. “Isso não é ruim”.