Pelo direito de sofrer

Categoria: Relacionamentos | 4 de setembro de 2017

Bom dia, gente!

Aqui é Kelly falando, diretamente do planeta fossa 😀

Queria dizer ao mundo que tenho profunda gratidão pelas boas intenções dos amigos e palavras de incentivo do tipo “sai dessa”, “não se entrega”, “bola pra frente”, “distrai a cabeça”, etc.

Do fundo do coração, muito obrigada.

Só que assim…

Não.

Apenas não.

Dor é uma coisa curiosa. Ela exige atenção (essa frase estava me parecendo familiar… e aí, lembrei: no “A culpa é das estrelas o Augustus fala isso bastante, que a dor exige ser sentida). Chega pra uma pessoa que acabou de prender o dedo na porta do carro e diz: “que isso, distrai a cabeça, foca no lado bom da vida”.

Claaaaaro, aham, já fiz já.

Então, não. Não dá.

Dizer que se arruma outro melhor logo, logo, está no mesmo patamar. Quem é que tá pensando (ou tem possibilidade de pensar) em outro agora?! Eu não quero outro, saca?! Se eu quisesse, eu não estava sofrendo (rsrs). Pode vir Rodrigo Hilbert fazendo dança sensual pelado na minha frente – pô, legal, mas não é isso. Não é esse. Simples assim. Eu queria querer outro? Não (!!!) (não mesmo). Eu queria era não querer esse. Só que a gente não deixa de amar as pessoas do dia pra noite. E os sonhos e planos alimentados e construídos por anos não te deixam magicamente, como se nunca tivessem existido, só porque a possibilidade de concretizá-los saiu pela porta com o cara que você amava e terminou com você.

Isso não significa que, de repente, eu ache que tudo é uma merda, que o mundo não presta, que o universo é esse lugar somente horrível, que é o fim e que eu quero morrer. Não também. Eu tenho plena consciência dos dias lindos que tem feito lá fora – um sol preguiçoso, quentinho de um jeito gostoso no ar frio – e que essa coisa berrante e desesperada no meu peito (que é o meu pobre coraçãozinho feito em cacos) eventualmente vai se acalmar e se refazer.

Só que, enquanto isso não acontece, é uma merdaaaaaaaa (!!!!).

E não vai deixar de ser uma merda (merdaaaaaaaa!!!!!!) só porque existe vida lá fora.

Na verdade, existe vida aqui dentro também. Só que essa foi completamente cagada pelo universo (uahaha).

Aí, a gente já adianta o que vem, né: “isso é aprendizado”, “isso está acontecendo pra que outras coisas melhores aconteçam”, “tudo vai dar certo”.

Que lindo…

Sim, ok, não desacredito disso.

Mas isso é *futuro*.

E eu não estou no futuro, eu estou no presente.

E o meu presente dói.

E, infelizmente, eu vou ter que viver isso até passar.

Então, tragam lencinhos.

 

Amor devastação

Categoria: Amor Próprio, Relacionamentos | 24 de agosto de 2017

Esse é um post de fossa…

 

Andei sumida, gente, porque muita coisa aconteceu.

Post passado (aqui) eu contei pra vocês do meu término-tempo com o Namorado, e que a gente tinha combinado pensar como e de que maneira nós continuaríamos na vida um do outro.

Bem, não queríamos ficar longe, tanto que, durante esse suposto tempo, nos encontramos várias vezes, muitas das quais deu merda. Não sei o motivo exatamente. Basicamente, eu acho que o que aconteceu é que queríamos desesperadamente um ao outro, mas estávamos machucados, com raiva e com medo. Receita para o desastre.

Minha vida estava uma loucura. Vocês não imaginam: alguns dias depois da gente se separar, bem quando eu estava daquele jeito cabelinho-na-parede, eu recebi um telegrama me informando que dali a uma semana teriam início as provas de um concurso para o qual eu tinha me inscrito. Cara… Passar nesse concurso era a coisa mais importante, a virada mais essencial, a transformação mais necessária que eu precisava operar na minha vida, gente. E lá estava eu, sabendo disso tudo, mas total e completamente devastada.

Mas já dizia a minha mãe, “a necessidade faz o gato pular”, e eu não tive outra opção a não ser meter a cara. Eu, mãe solteira, bolsista, uma **fodida** de grana, simplesmente não podia, de jeito nenhum, me dar ao luxo de deixar essa oportunidade de segurança e independência financeira passar. Até porque era um concurso pra fazer exatamente o que eu queria da vida. Mas o desespero batia forte, o desânimo, a tristeza… e eu repetia pra mim, de novo e de novo, as palavras de um amigo meu: “Kelly, se você perder esse concurso por causa de homem, eu dou na sua cara!”

(:-D)

Foi foda.

Eu me sentava no sofá desesperada, querendo chorar, morrer, mas tinha que respirar fundo, tirar energia sei lá de onde e estudar. E a semana seguinte, a semana das provas, foi trocentas vezes pior porque, além do nervosismo e do desespero envolvidos no processo, a cada véspera de prova, o Namorado aparecia, dizendo que queria ajudar, mas o que acontecia é que ele arrumava briga comigo.

Ele ia embora e eu ficava lá, sentada, me tremendo toda, com a cabeça nas mãos, dizendo: “eu fiz isso comigo”. E *eu* fiz mesmo, porque eu escolhi abrir a porta. Lá no fundo eu sabia que o encontrar daria merda. Assim mesmo, quando ele me perguntava se podia ir lá em casa, eu, com saudade, com fome dele, dizia sim.

É bem estranho isso, e super válido pra gente pensar nas coisas que a gente faz consigo mesma, em como e no quanto nós mesmos complicamos a nossa própria vida, e, que, às vezes, parece que o difícil a fazer é o que é melhor  pra gente (!) (deveria ser o oposto, né, mas não é): impor os limites, não dar ao outro outra opção além de respeitar a gente.

Na penúltima prova – que eu fui, aliás, fazer virada, sem dormir, porque tinha ficado até onze horas da noite discutindo com ele – eu dei um basta. Disse que não queria mais falar com ele até a data que a gente havia determinado para o fim do nosso tempo. Foi muito, muito difícil fazer isso, mesmo com a raiva que eu estava sentindo. Eu estava apavorada com a possibilidade de ele me esquecer, me superar, não querer mais nada comigo. Mas eu precisei cerrar os dentes, enterrar isso dentro de mim (sobrecarregar meus amigos com mensagens chorosas e desesperadas, pra dar uma segurada), e colocar minhas prioridades no lugar.

Depois da semana mais difícil da minha vida, eu cheguei ao fim do concurso e, após uma cerimônia nos moldes de uma apuração dos desfiles das escolas de samba, com as notas sendo retiradas de envelopes lacrados, uma a uma, candidato por candidato (gente… sério… muito desesperador), eu descobri… que passei (!!!!!).

Tive que ligar pra ele pra contar. Ele estava tão ansioso quanto eu pelo resultado. Na hora, eu só sentia alívio, e todas as mágoas e brigas e raivas desapareceram de dentro de mim. Eu o queria comigo, ele foi me encontrar para comemorar, e os olhares que a gente trocou eram puro amor. Ele voltou pra casa comigo e cuidou de mim nos dois dias seguintes (eu virei um espectro, gente, uma morta viva, minha energia acabou e eu desliguei que nem celular descarregado), antes de voltar para a casa dele pra terminar o tempo do tempo.

Quando a gente finalmente sentou pra conversar, foi mágico. A gente só queria voltar um pro outro. Que alívio maravilhoso foi sentir todo o medo que me habitou durante aquele mês ir embora. Decidimos voltar e nos esforçar para crescer juntos, para construir um relacionamento saudável, um futuro. Nós dois sabíamos que não seria nada fácil, que havia muitos ajustes e muito trabalho a ser feito, mas nós queríamos tentar, queríamos acertar.

Foi incrível.

E depois vieram os momentos de dificuldade, porque, nos relacionamentos, eles sempre vêm.

E aí… ele desistiu…

(*dor*)

… e terminou comigo dois dias atrás.

Agora eu oscilo entre rompantes de raiva (que me energizam e me confortam, gratidão eterna por eles) e desespero e dor. Pensei muitas e muitas vezes em ligar pra ele implorando pra ele voltar, pra ele não fazer isso, não jogar nosso relacionamento no lixo… Perdi um tempo esses dias e sofri mais ainda pensando que eu poderia tê-lo impedido talvez, se eu tivesse me agarrado a ele na hora… e pedido… e implorado… e argumentado…

Penso diferente agora.

Olho pra trás e tenho orgulho de mim por não ter feito isso.

Na hora em que aconteceu, eu tive meu momento de fraqueza, sim, de “não, espera, por favor, vem cá…” mas ele durou pouco porque, quando eu me percebi, novamente, em uma posição de ter que o convencer a não desistir da nossa relação (momentos parecidos já haviam acontecido em conversas nos dois dias anteriores e em tantas outras), eu me interrompi. E uma raiva abençoada baixou sobre mim (pra me salvar rsrs). E tudo o que eu pensava era: “Vale a pena estar com alguém que precisa ser convencido a estar comigo? Pra quê?!” O que fez com que eu me esticasse na minha coluna e dissesse (talvez mais perto de um “berrasse”): “Beleza. Você tá terminando comigo? Então sai daqui agora!”

Hoje em dia, eu tenho uma visão bastante clara sobre o que é um relacionamento amoroso. Depois de tudo o que eu passei na minha vida, definitivamente ela não é romântica (tipo conto de fadas) e nem iludida. Eu acho até que é muito mais sensacional o modo como eu enxergo uma relação agora. Relacionamento pra mim é trabalho, é escolha, é esforço, é, acima de tudo, cultivo. É viver dias em que você quer esganar a pessoa, e dias em que é como se um sol brilhasse dentro de você por causa dela (é, em grande parte por esses segundos, que se segura a onda nos primeiros). É ter que encarar o que é feio em você e no outro, mas aprender com isso e seguir amando mesmo assim. É crescer junto, mesmo com toda a bosta que vem à tona nos processos de crescimento. É superar, e chorar, e rir, e discutir, e se desculpar, conhecer o alívio de ser perdoado e de perdoar, conversar sem nem dizer nada, cair, levantar, se irritar, se abraçar e sentir como se o toque do outro expandisse o seu corpo para além dos limites da pele, e viver a experiência maravilhosa de saber que tem alguém ali, com você, pro que der e vier.

Mas pra isso acontecer, não é destino, não é karma, não é deus, não é a vida: é escolha, gente. É escolher, dia após dias, seguir  e construir caminho com aquela pessoa. Sendo assim, acima de tudo, é querer…

E não importa o quanto eu queira isso com toda a força do meu coração… ele não quer.

E não existe absolutamente nada que eu possa fazer a respeito disso a não ser chorar…

E seguir em frente…

Até que um dia eu encontre alguém que queira tanto quanto eu.

 

 

 

 

 

 

 

Amor de ficção

Categoria: Relacionamentos | 2 de junho de 2017

Há um tempo – meses! – começo, paro, apago, deixo pra outro dia… recomeço, paro, apago… e assim sucessivamente, de novo e de novo, um post sobre relacionamentos. Com alguns posts é assim. Demora a sair. Tem um tempo pra maturar. Às vezes, acontece. Às vezes, não sai do lugar.

Minha vida, principalmente a afetiva, andou mal das pernas. Muita coisa aconteceu: muita mágoa, muito desgaste. E o meu relacionamento, que começou de coisa boa, de fazer bem, adoeceu… E começou a fazer mal… De um jeito e de tal forma que mudar (eu, ele e o relacionamento como um todo) parecia impossível. Nessas horas, a gente entra no círculo maldito infinito das acusações (você isso, você aquilo…), e a negatividade infiltra e contamina tudo, e só o que a gente vê, escuta e sente é o que está “””errado”””. E aí, você se vê vivendo essa coisa insuportável e insustentável de um atacar-se/defender-se/ferir-se mutuamente diário, e se pergunta: “Pra quê, isso? Pra quê?! Não dá mais. Acabou!” E, o.k., isso seria relativamente simples, não fosse essa coisa incômoda e contraditória que é o amor que você sente. Mas que entra no turbilhão também, já enfraquecido e posto em dúvida: “Será que é amor isso? Se a situação chegou a esse ponto, se as coisas estão dessa maneira, será que isso é amor? Como eu posso ainda amar essa pessoa depois de tudo o que aconteceu?”

Os questionamentos são sempre válidos e necessários – muito embora doloroooooosos pra todos os envolvidos – porque a gente tende a se enredar e se embolar numas situações muito loucas, e tende a acreditar numas histórias – seja de terror (o outro é o mauzão vilão), seja de fantasia romântica (o outro é *o* príncipe) – super elaboradas e convincentes que a gente conta pra gente mesmo, de novo e de novo, e que só fazem a gente se meter (também pra ser entendido como *criar*, *fazer acontecer* – vamo lá, galera, auto responsabilidade) em furada.

No nosso caso aqui, a relação doente foi terminada, e nós entramos num tempo pra pensar no que sentíamos um pelo outro, se queríamos ou não continuar na vida um do outro, e, se sim, de que forma…

Gente…

Que merda.

Eu chorei oceanos de dor.

Eu me lembrava da gente, no passado, no início, olhando um pro outro e lacrimejando de felicidade de ter se encontrado nessa Terra e, puta que pariu, eu não podia acreditar – e como me doía! – que tivesse acabado. Foi dilacerante ver esse sonho de futuro conjunto ser soprado pra longe pelo vento da carência afetiva, do egoísmo, da cegueira emocional, do narcisismo, das repetições, das projeções, do simplesmente não saber como construir **e manter** uma relação saudável…

(E, convenhamos, nesse mundo, nessa sociedade, quem, de fato, sabe? Eu, certamente, não tive exemplos disso)

A partir desse ponto, na história, foram muitos os desdobramentos. Muita coisa aconteceu: cagada, estresse (elevado à milésima potência), brigas, guinadas de vida muito loucas, lições aprendidas, e até algumas conquistas bastante importantes. Mas onde eu queria chegar com esse post, é numa música (de fossa, claro :-D) do Bob Dylan que eu ouvi trezentas milhões de vezes nessa fase, e que não me saía da cabeça, e que me fazia chorar a alma (olha essa letra, gente!!!):

Eu ouvia isso e chorava, chorava, choraaaaava de soluçar. Porque essa música fala do dar-se conta que, às vezes (muitas), a gente espera do outro ser algo que ele não é, ou espera do outro fazer coisas que ele não pode e nem tem como fazer. E a gente continua querendo mesmo assim. De qualquer jeito. Tipo: “não importa se isso não é o que você é. Seja o que e como eu quero que você seja. Faça o que e como eu quero que você faça. Faça-me feliz. Desse jeito (o meu jeito)”. E aí um véu se instala entre a gente e o outro, e tudo o que a gente enxerga é a ficção do que é o outro – que é, no fundo, a fantasia do que a gente espera que o outro seja (e que só existe e só vai existir na nossa cabeça): essa pessoa-sonho (encaixe perfeito, metade da laranja, metade do pingente de coração) que vai suprir todas as nossas necessidades, preencher todos os buracos, dar todo o apoio, suporte e acolhimento, e ser perfeita no sentido de ser do jeitinho que a gente quer ou acha que precisa. 

E, aí, acaba que o que a gente diz/passa a amar, não é a realidade do outro, mas um outro fictício (que existe e persiste com toda força nas nossas expectativas). Ou ainda, a esperança daquilo que o outro pode se tornar. Nesse caso, nós nos vemos como os fodões-das-galáxias, aqueles que vão transformar (!) – consertar (!!) – salvar (!!!) o outro desse terrível destino que é não serem como nos nossos sonhos (…).

Foda né.

Muita decepção se faz assim, galera. Muita desilusão. Muita mágoa. E, no fim, é tudo sofrimento desnecessário, porque, não importa o quanto a gente grite, se descabele, se debata, esbraveje, certos buracos só a gente pode preencher dentro da gente. E, no fundo, só nós mesmos podemos nos fazer felizes. E, assim, ser felizes com o outro, e não por causa dele.

Essa semana eu vi dois vídeos que tocam nessas questões.

Um é o de um rabino falando sobre o que é (e o que a gente acha que é) amor:

E, o outro, é um da monja Coen, que eu postei na página do blog, lá no Facebook:

A monja diz: “se plantou semente de melancia, não vai colher figo”.

É sobre esse dar-se conta que fala a música do Bob Dylan. Ele tá dizendo pra mulher: “eu não sou um figo, babe”, (uahahaha) “não adianta. Eu não sou um figo. Eu sou uma melancia”. E é uma coisa tão simples, que é inacreditável que seja tão difícil de ver/perceber/assumir.  Mas é difícil, e é, porque é muito doloroso, gente. Tanto é doloroso perceber que o outro não pode ser/não é o que você quer, quanto é doloroso perceber que a gente não pode ser/não é o que o outro quer.

Não por muito tempo…

Amores de ficção não se sustentam (pelo menos, não de forma saudável e benéfica para todos os envolvidos), porque a ficção não resiste muito tempo no confronto com o real do dia-a-dia.

Pra construir efetivamente alguma coisa boa com alguém é imprescindível enxergar com clareza a realidade do que é o outro.

Mas, mais imprescindível ainda, é enxergar com clareza a realidade do que a gente é.